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Terror noturno infantil: idade, causas e estudos

A criança grita, os olhos estão abertos e ela não vê você. Na manhã seguinte não lembra de nada. O que a pesquisa sabe sobre isso é mais tranquilizador do que a cena.

Por Jan Kohlhaas · 10 min de leitura · Atualizado em 21/10/2026 · Informação geral de bem-estar, não um diagnóstico médico

A resposta curta

Terror noturno infantil é um despertar parcial do sono profundo em que a criança grita ou chora, parece acordada e não responde, e em geral não lembra do episódio. É muito comum cedo: numa coorte canadense de 1.940 crianças, o pico foi de 34,4% aos 18 meses, e num estudo com 390 pares de gêmeos a prevalência caiu de 36,9% aos 18 meses para 19,7% aos 30 meses. A genética explica cerca de 42% a 44% da variação nesses gêmeos, e quem tem pais sonâmbulos tem mais chance. Numa série clínica de 84 crianças com parassonias, 61% tinham outro distúrbio do sono, sobretudo respiratório, e tratá-lo eliminou os episódios nas 45 tratadas. Ronco alto com pausas, episódios muito frequentes, machucados ou início mais tarde pedem pediatra ou médico do sono.

É madrugada, a casa está quieta, e de repente o grito. A criança está sentada na cama, olhos abertos, suando, chorando de um jeito que não é o choro de sempre, e quando você se aproxima ela olha através de você. Se você a pega no colo, ela resiste. Dois minutos depois ela se deita e dorme. De manhã, toma café como se nada tivesse acontecido. Quem passa por isso uma vez raramente esquece, e a pergunta que fica é o que foi aquilo. O nome é terror noturno, e a literatura sobre ele é mais sólida do que a conversa de grupo de pais sugere.

O que é o terror noturno infantil e como separar do pesadelo

Terror noturno é uma parassonia do sono não-REM, do mesmo grupo do sonambulismo e do despertar confuso. Num estudo sobre o que as pessoas vivem durante esses episódios, pesquisadores entrevistaram 45 pacientes e viram que a maioria das 20 crianças, mais de dois terços, não se lembrava de nenhuma atividade mental ligada ao episódio, enquanto mais de dois terços dos 25 adultos recordavam alguma experiência. Isso explica a diferença que mais pesa para quem está de fora: no pesadelo, a criança acorda, está lúcida e conta o sonho; no terror noturno, parece desperta e não está, e no dia seguinte não sabe do que se trata. Se o que você viu foi uma criança que acorda chorando e quer colo, leia o artigo sobre pesadelos.

Castelnovo A, Loddo G, Provini F, Miano S, Manconi M. Mental Activity During Episodes of Sleepwalking, Night Terrors or Confusional Arousals: Differences Between Children and Adults. Nat Sci Sleep 2021. PMID 34188578

O episódio sai do sono profundo, que se concentra no primeiro terço da noite, e por isso costuma acontecer uma a três horas depois de a criança dormir, e não de manhã. Na prática, o terror noturno é um cérebro preso entre dormir e acordar. As áreas ligadas ao movimento e ao medo ligam, as áreas da consciência e da memória ficam desligadas. O artigo sobre sonambulismo detalha essa mecânica, e o de terror noturno adulto mostra como o mesmo fenômeno se apresenta mais tarde na vida.

Hipnograma de uma noite (rótulos em inglês). O sono mais profundo, NREM 3 (linha tracejada "SWS level"), aparece nos primeiros ciclos, nas primeiras horas neste exemplo, e quase some nos ciclos finais, onde predominam o REM em vermelho e o NREM 1 e 2. É dos blocos de NREM 3 do começo que saem os terrores noturnos.
Hipnograma de uma noite (rótulos em inglês). O sono mais profundo, NREM 3 (linha tracejada "SWS level"), aparece nos primeiros ciclos, nas primeiras horas neste exemplo, e quase some nos ciclos finais, onde predominam o REM em vermelho e o NREM 1 e 2. É dos blocos de NREM 3 do começo que saem os terrores noturnos. RazerM · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Terror noturno em bebê e em criança: de que idade a que idade

Os números vêm de coortes que acompanharam as crianças desde cedo. No estudo longitudinal de Quebec (Quebec Longitudinal Study of Child Development), com 1.940 crianças nascidas em 1997 e 1998 e perguntas feitas todo ano à mãe, o terror noturno teve pico aos 18 meses, em 34,4% (intervalo de confiança de 95%: 32,3% a 36,5%). O sonambulismo teve pico mais tarde, aos 10 anos, em 13,4%. Cerca de um terço das crianças que tiveram terror noturno cedo desenvolveu sonambulismo depois, e o histórico de sonambulismo dos pais previu tanto o terror noturno quanto a persistência dele.

Petit D, Pennestri MH, Paquet J, Desautels A, Zadra A, Vitaro F, Tremblay RE, Boivin M, Montplaisir J. Childhood Sleepwalking and Sleep Terrors: A Longitudinal Study of Prevalence and Familial Aggregation. JAMA Pediatr 2015. PMID 25938617

Um segundo estudo, com 390 pares de gêmeos acompanhados desde o nascimento, mediu a prevalência aos 18 e aos 30 meses: 36,9% e 19,7%, respectivamente, sem diferença importante entre meninos (49%) e meninas (51%). A queda entre um ponto e outro bate com a ideia de que o terror noturno de bebê pequeno costuma ser uma fase. Uma coorte posterior, com 324 crianças acompanhadas aos 12, 18, 24 e 36 meses, viu a frequência relativamente estável na primeira infância, entre 16,7% e 20,5%.

Nguyen BH, Pérusse D, Paquet J, Petit D, Boivin M, Tremblay RE, Montplaisir J. Sleep terrors in children: a prospective study of twins. Pediatrics 2008. PMID 19047218

Laganière C, Gaudreau H, Pokhvisneva I, Kenny S, Bouvette-Turcot AA, Meaney M, Pennestri MH. Sleep terrors in early childhood and associated emotional-behavioral problems. J Clin Sleep Med 2022. PMID 35686369

E no Brasil? Numa coorte de nascimentos de Pelotas, com 4.231 pessoas, as mães relataram parassonias (despertar confuso, sonambulismo, terror noturno e pesadelos) aos 11 anos: 16,8% das crianças tinham alguma, e o despertar confuso foi o tipo mais frequente (14,5%). O dado não separa o terror noturno, mas mostra que as parassonias seguem presentes em idade escolar.

Guttier MC, Halal CS, Matijasevich A, Del-Ponte B, Tovo-Rodrigues L, Barros F, Bassani DG, Santos IS. Trajectory of maternal depression and parasomnias. J Sleep Res 2024. PMID 36940922

Terror noturno na primeira infância (% das crianças)Quebec, 18 meses34,4%Gêmeos, 18 meses36,9%Gêmeos, 30 meses19,7%Coorte de 324 (maior valor)20,5%
Quatro barras horizontais, de três coortes. A primeira vem de 1.940 crianças em Quebec, com perguntas feitas todo ano à mãe. As taxas mais altas aparecem em torno dos 18 meses e caem depois. Fontes: Petit 2015, Nguyen 2008 e Laganière 2022 (da última, o maior dos valores de 16,7% a 20,5% relatados entre as idades).

Por que acontece: o que os estudos apontam

Três linhas aparecem com mais força. A primeira é a genética. Nos gêmeos, as correlações foram de 0,63 para os idênticos e 0,36 para os fraternos aos 18 meses, e de 0,68 e 0,24 aos 30 meses. O modelo atribuiu 43,7% da variação a efeitos genéticos aditivos aos 18 meses e 41,5% aos 30 meses, o resto ao ambiente não compartilhado. Ou seja, a herança pesa bastante, mas ela não explica tudo. A segunda linha é familiar: na coorte de Quebec, o sonambulismo dos pais aumentava a chance de terror noturno no filho.

A terceira linha é a respiração durante o sono, e é a que mais muda o que os pais podem fazer. Um estudo de uma clínica de referência avaliou 84 crianças pré-puberais com terror noturno, cinco só com ele e 79 com terror e sonambulismo, comparadas com 36 controles sem parassonia. Cinquenta e uma (61%) tinham outro distúrbio do sono associado: 49 com distúrbio respiratório do sono e duas com síndrome das pernas inquietas. Das 45 tratadas, 43 do problema respiratório (cirurgia de amígdalas, adenoides e/ou cornetos) e duas das pernas inquietas, todas ficaram sem a parassonia depois do tratamento, e a polissonografia 3 a 4 meses depois mostrou que o problema respiratório sumiu. Nas seis crianças que não trataram o distúrbio respiratório, a parassonia persistiu. Os autores concluem que o distúrbio respiratório pode ser um gatilho dos episódios.

Guilleminault C, Palombini L, Pelayo R, Chervin RD. Sleepwalking and sleep terrors in prepubertal children: what triggers them? Pediatrics 2003. PMID 12509590

É preciso ler com cuidado: foi um estudo retrospectivo, numa clínica de referência, de crianças que já tinham episódios repetidos e foram encaminhadas. Não diz que todo terror noturno vem de respiração ruim, e nada nesse trabalho justifica operar uma criança porque ela tem um terror noturno isolado. O que ele sustenta é uma pergunta que vale fazer ao pediatra quando os episódios são frequentes: como esta criança respira à noite? O artigo sobre ronco faz mal explica o que separa ronco simples de ronco com pausas, e o de dormir de boca aberta mostra o que o nariz tem a ver com isso.

Por fim, a ligação com o humor. Na coorte de 324 crianças, quanto mais frequente o terror noturno nos primeiros anos, maiores os problemas emocionais e de comportamento aos 4 e 5 anos, sobretudo os do tipo internalizante (ansiedade, retraimento). É uma associação medida ao longo do tempo, com controle de variáveis, mas não prova que o terror cause os problemas. E em Pelotas, filhos de mães com sintomas depressivos crônicos tiveram mais parassonias aos 11 anos (razão de prevalência de 3,07 no grupo de sintomas mais altos).

O que se sabe sobre terror noturno e autismo

O que está sustentado é mais amplo do que o terror noturno: problemas de sono são frequentes no espectro autista. Uma metanálise de 2026 com 22 estudos e 3.771 participantes estimou em 60% a prevalência de distúrbios do sono em crianças e adolescentes com autismo, e uma de 2023, com 16 estudos, achou em crianças autistas sem medicação maior latência para dormir, menor eficiência do sono e menos tempo total de sono do que nas crianças sem autismo, por medidas objetivas. Nenhum dos estudos citados isolou o terror noturno como marca específica do autismo. Se a criança é autista e tem episódios noturnos, o caminho é descrever os episódios ao médico que a acompanha.

Kim H, Kim JH, Kim J, Kim JY, Cortese S, Smith L, Koyanagi A, Radua J, Fusar-Poli P, Carvalho AF, Salazar de Pablo G, Shin JI, Cheon KA, Solmi M. Subjective and objective sleep alterations in medication-naïve children and adolescents with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Epidemiol Psychiatr Sci 2023. PMID 37469173

Wang H, Yu L, Hu S, Gao H, Shen Q. Prevalence and associated factors of sleep disorders in children and adolescents with autism spectrum disorder: a meta-analysis and systematic review. BMC Psychiatry 2026. PMID 42192550

O que registrar e o que fazer durante o episódio

Para a consulta, vale mais um registro curto do que uma lembrança aflita: a data, o horário depois de a criança dormir, a duração aproximada, o que ela fez e disse e se algo mudou na semana (febre, noite curta, mudança de rotina). Se houver um gravador de celular ou a babá eletrônica ligada, o áudio mostra se, antes do grito, havia ronco, respiração ruidosa ou pausas, e é esse o trecho que o pediatra mais quer ouvir. O áudio de celular serve aqui como registro, não como medida; o SleepTrace não foi desenhado para esse público e não faz diagnóstico.

Durante o episódio, a orientação pediátrica usual, que não é resultado de um dos estudos acima, é proteger e esperar: deixar a criança num lugar seguro, falar baixo, não sacudir nem forçar o despertar, e voltar a dormir quando passar. Tentar acordá-la costuma prolongar a agitação.

Vale marcar o pediatra ou um médico do sono se os episódios são muito frequentes, se a criança se machuca, se há ronco alto com pausas e engasgos, se os movimentos são rítmicos e a criança morde a língua ou fica mole depois (isso pode ser outra coisa que não terror noturno), ou se os episódios começam em idade mais avançada. Este texto é informativo e não faz diagnóstico.

Perguntas frequentes

Um despertar parcial do sono profundo em que a criança grita ou chora, parece acordada, não responde e em geral não lembra do episódio. Em coortes de crianças pequenas, é muito comum: 34,4% aos 18 meses na coorte de Quebec e 36,9% aos 18 meses em gêmeos, caindo para 19,7% aos 30 meses.

É frequente: o pico medido em coortes fica em torno dos 18 meses. Isso não exclui avaliar o que vem junto, como ronco alto com pausas, episódios muito frequentes ou machucados.

Na maioria das crianças, a frequência cai ao longo da infância: no estudo com gêmeos, de 36,9% aos 18 meses para 19,7% aos 30 meses. Cerca de um terço das crianças com terror noturno cedo desenvolveu sonambulismo mais tarde, o que mostra que são manifestações do mesmo grupo.

Problemas de sono são comuns no autismo (60% numa metanálise de 2026), mas nos estudos revisados nenhum mostrou o terror noturno como característica específica. Descreva os episódios ao médico que acompanha a criança.

No pesadelo, a criança acorda, está lúcida, lembra do sonho e aceita consolo. No terror noturno ela parece desperta, mas não está, não responde direito e no dia seguinte não lembra. O pesadelo é mais comum na segunda metade da noite, e o terror noturno, no começo.

Na maioria dos casos o manejo é proteger a criança e esperar (orientação pediátrica usual, sem estudo citado aqui). Em crianças com episódios repetidos, vale investigar condições associadas, como distúrbio respiratório do sono: numa série retrospectiva de 84 crianças de uma clínica de referência, o fim dos episódios acompanhou o tratamento dessa causa nas 45 tratadas (43 delas com cirurgia), mas o estudo não prova que todo terror noturno tenha essa origem. A decisão é do pediatra ou do médico do sono.

SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.


O terror noturno é comum cedo na infância e ocorre no primeiro terço da noite, e a criança não lembra de nada. O SleepTrace, no celular ao lado da cama, marca fala, tosse e ronco com horário. Ele não vê movimento nem acalma a criança, mas ajuda a situar o episódio e a contar ao pediatra quantas vezes aconteceu.

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