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Ronco faz mal? O que o ronco e a apneia do sono podem causar, com os números

Ronco pode matar? A pergunta mistura duas coisas. O ronco simples é um barulho com associações ainda discutidas. A apneia do sono é um problema de respiração com números bem mais sólidos.

Por Jan Kohlhaas · 11 min de leitura · Atualizado em 20/10/2026 · Informação geral de bem-estar, não um diagnóstico médico

A resposta curta

Ronco faz mal depende do que o ronco é. O ronco simples, sem pausas respiratórias, tem associações ainda discutidas: uma meta-análise de 16 estudos ligou o ronco a 46% mais risco de AVC, mas um seguimento de 4 anos com 3.129 pessoas não mostrou piora nas artérias carótidas. Já a apneia do sono tem dados mais fortes. Em uma coorte de Wisconsin, quem tinha 15 ou mais eventos por hora tinha 2,89 vezes a chance de pressão alta quatro anos depois, e em 18 anos de seguimento a apneia grave se associou a 3,0 vezes o risco de morte por qualquer causa. Apneia também se associou a AVC e a mais risco de Alzheimer (razão de risco 1,28). Nada disso é diagnóstico: o que importa é descobrir se o seu ronco vem com pausas, e isso se confirma com exame do sono.

«Ronco pode matar?» É uma das buscas mais ansiosas sobre sono, e quase sempre vem de alguém que ouviu o parceiro roncar a noite inteira ou viu um vídeo de uma pessoa que não acordou. A pergunta mistura duas coisas diferentes, e separá-las já diminui metade do medo. O ronco é um barulho. A apneia do sono é um problema de respiração que costuma fazer barulho. O que os estudos medem, e o tamanho do risco, é diferente em cada caso.

Ronco faz mal? Depende do que o ronco é

O ronco, sozinho, é a vibração de tecidos da garganta com ar passando apertado. A apneia obstrutiva é quando a via aérea fecha por completo ou quase, de forma repetida, e a respiração para por alguns segundos até o corpo acordar levemente para reabri-la. Muita gente se pergunta se apneia é ronco. Não é: ronco é um sinal, e apneia é uma condição. Quem tem apneia do sono ronca na grande maioria dos casos, mas nem todo roncador tem apneia, e o oposto, apneia sem ronco audível, também existe, embora seja menos comum (essa é a descrição clínica usual, sem estudo citado aqui). Por isso o ronco é sinal de que a via aérea está estreita, e só o padrão (pausas, engasgos, sono forte de dia) diz se existe um problema a mais. Para organizar isso, veja ronco é normal e como saber se tem apneia do sono.

O que o ronco simples pode causar: o que se mediu

O que o ronco pode causar? A maioria pensa em coração e cérebro. Os dados sobre o ronco isolado são divididos. Uma meta-análise cumulativa de 16 artigos, com 3.598 pacientes com AVC e 145.901 participantes, encontrou que o ronco se associou a 46% mais risco de AVC (risco relativo 1,46). Isso é associação em estudos observacionais, em que o ronco pode estar medindo apneia não diagnosticada, obesidade ou pressão alta, e não prova que o barulho cause o AVC.

Bai J, He B, Wang N, Chen Y, Liu J, Wang H, Liu D. Snoring Is Associated With Increased Risk of Stroke: A Cumulative Meta-Analysis. Front Neurol 2021. PMID 33868139

Sobre as artérias, há resultados que se contradizem. Num estudo transversal com 140 pacientes com aterosclerose, os que tinham ronco primário, confirmado por polissonografia, tinham a espessura da íntima-média da carótida maior (0,90 contra 0,65 mm). Os autores levantam a hipótese de que a vibração do ronco poderia lesar a parede da carótida, mas a amostra é pequena e específica, e o desenho não prova causa. Já um seguimento prospectivo de quatro anos, com 3.129 pessoas, não encontrou diferença na evolução da espessura da carótida entre roncadores habituais, ocasionais e não roncadores, apesar de uma diferença no início entre mulheres roncadoras e não roncadoras. Os autores pedem estudos mais longos com medida objetiva do ronco.

Görgülü O, Görgülü FF. Is There Any Relationship Between Primary Snoring and Carotid Intima-Media Thickness? A Cross-Sectional Study. J Clin Med 2025. PMID 41517549

Kim J, Pack A, Maislin G, Lee SK, Kim SH, Shin C. Prospective observation on the association of snoring with subclinical changes in carotid atherosclerosis over four years. Sleep Med 2014. PMID 24841110

Então ronco pode matar? Dizer que ronco mata, como se o som fosse o perigo, é simplificação: não existe estudo que mostre que o barulho do ronco em si mate. O que existe são dados de mortalidade em quem tem apneia, e é ali que o risco aparece. O ronco simples, sem pausas, é um motivo para avaliar com calma e tratar os fatores que o pioram, e não para pânico.

O que a apneia do sono causa: pressão, coração e cérebro

Aqui os números são mais sólidos. O que a apneia do sono causa? A lista segue, em ordem de força da evidência:

  • Pressão alta. Em 709 participantes da coorte de Wisconsin, com polissonografia completa, os que tinham índice de apneia e hipopneia de 0,1 a 4,9 eventos por hora tinham 1,42 vez a chance de hipertensão quatro anos depois, em comparação a quem tinha zero eventos. Com 5,0 a 14,9 eventos por hora, a chance era de 2,03, e com 15 ou mais, 2,89. O ajuste considerou índice de massa corporal, circunferência do pescoço e da cintura, idade, sexo, álcool e cigarro.
  • AVC. Entre 5.422 participantes do Sleep Heart Health Study, acompanhados por uma mediana de 8,7 anos, houve 193 AVCs isquêmicos. Em homens, o risco aumentou com o índice de apneia, e quem estava no quartil mais alto (acima de 19) teve razão de risco ajustada de 2,86. Em mulheres, a associação por quartis não foi significativa, e um aumento de risco apareceu apenas acima de 25 eventos por hora. Uma meta-análise de cinco estudos, com 8.435 participantes, encontrou odds ratio de 2,24 para AVC em quem tinha apneia.
  • Coração. A mesma meta-análise encontrou associação com morte cardiovascular (OR 2,09 em dois estudos), mas a associação com doença isquêmica do coração não foi estatisticamente significativa no conjunto, e os autores dizem que essa relação precisa de mais pesquisa.
  • Mortalidade. Em 1.522 pessoas acompanhadas por 18 anos, a razão de risco para morte por qualquer causa, comparando apneia grave com ausência de apneia, foi 3,0. Retirando quem usou aparelho de pressão de ar, foi 3,8, e para morte cardiovascular, 5,2.
  • Memória. Uma meta-análise de 11 estudos de coorte, com 1,3 milhão de pacientes, encontrou que apneia do sono se associou a risco aumentado de doença neurocognitiva (razão de risco 1,43), de Alzheimer (1,28) e de Parkinson (1,54), mas não de demência vascular. A relação entre apneia do sono e Alzheimer é uma associação vista em estudos observacionais.
Chance de pressão alta 4 anos depois, por nível de apneia0,1 a 4,9 eventos/h1,42×5,0 a 14,9 eventos/h2,03×15 ou mais eventos/h2,89×
Esquema próprio com as razões de chance do estudo de Peppard e colegas (709 adultos de Wisconsin) em relação a 0 eventos por hora. A barra mostra quantas vezes a chance de hipertensão é maior; não é a probabilidade de ficar hipertenso.

Peppard PE, Young T, Palta M, Skatrud J. Prospective study of the association between sleep-disordered breathing and hypertension. N Engl J Med 2000. PMID 10805822

Redline S, Yenokyan G, Gottlieb DJ, Shahar E, O'Connor GT, Resnick HE, Diener-West M, Sanders MH, Wolf PA, Geraghty EM, Ali T, Lebowitz M, Punjabi NM. Obstructive sleep apnea-hypopnea and incident stroke: the sleep heart health study. Am J Respir Crit Care Med 2010. PMID 20339144

Loke YK, Brown JW, Kwok CS, Niruban A, Myint PK. Association of obstructive sleep apnea with risk of serious cardiovascular events: a systematic review and meta-analysis. Circ Cardiovasc Qual Outcomes 2012. PMID 22828826

Young T, Finn L, Peppard PE, Szklo-Coxe M, Austin D, Nieto FJ, Stubbs R, Hla KM. Sleep disordered breathing and mortality: eighteen-year follow-up of the Wisconsin sleep cohort. Sleep 2008. PMID 18714778

Guay-Gagnon M, Vat S, Forget MF, Tremblay-Gravel M, Ducharme S, Nguyen QD, Desmarais P. Sleep apnea and the risk of dementia: A systematic review and meta-analysis. J Sleep Res 2022. PMID 35366021

Um aviso de leitura: todos esses números vêm de estudos observacionais. Eles mostram que apneia e esses problemas andam juntos, mesmo depois de ajustar peso e idade, mas não provam que tratar a apneia reverta cada um deles. O risco da apneia do sono, nesses estudos, é um risco de grupo: um risco relativo alto não significa que acontecerá com você, e sim que, em média, a chance é maior.

Como funciona a apneia do sono, e por que acontece

Como funciona a apneia do sono? A resposta tem três passos. Durante o sono, os músculos que mantêm a garganta aberta relaxam. Se a via aérea é estreita, ela colapsa e o ar para de passar. O oxigênio cai, o cérebro reage com um despertar breve que reabre a via, e o ciclo se repete dezenas ou centenas de vezes por noite, fragmentando o sono sem que a pessoa lembre.

O que explica por que a pessoa tem apneia do sono é uma soma de fatores. No levantamento de Pelotas, a apneia estimada por questionário foi mais provável em homens (prevalência 2,05 vezes maior), idosos (2,23), fumantes atuais (1,60) e pessoas com obesidade (2,61). Em São Paulo, num estudo com polissonografia completa, 32,8% das pessoas tinham apneia. E o peso mexe diretamente: em 690 pessoas acompanhadas por quatro anos, um ganho de 10% de peso aumentou em seis vezes a chance de ter apneia moderada a grave. Por isso, ao se perguntar o que causa apneia do sono grave, a resposta honesta é que não há uma causa única: anatomia, peso, idade, sexo e hábitos somam. Dos fatores acima, o peso é o que mais se mexe.

Noal RB, Menezes AM, Canani SF, Siqueira FV. Habitual snoring and obstructive sleep apnea in adults: population-based study in Southern Brazil. Rev Saude Publica 2008. PMID 18372974

Peppard PE, Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J. Longitudinal study of moderate weight change and sleep-disordered breathing. JAMA 2000. PMID 11122588

E o cansaço? Ronco tem a ver com cansaço? Na apneia, sim: o sono fragmentado por despertares breves não restaura, e a pessoa acorda cansada, com dor de cabeça ou boca seca. Para o ronco simples, sem pausas, eu não encontrei um estudo para citar sobre cansaço, e por isso não afirmo nada. Quem acorda cansado com frequência deve ler acordar cansado e acordar de madrugada com dor de cabeça.

Apneia do sono infantil é perigoso? O que acompanha o ronco em crianças

Nas crianças a pergunta é mais urgente, e vale ler com calma. Num estudo de 70 crianças de 6 a 13 anos com ronco primário confirmado por polissonografia, acompanhadas por 4,6 anos em média, 37,1% progrediram para apneia obstrutiva, das quais 7,1% (cinco crianças) para apneia moderada a grave. 31,4% continuaram com ronco primário e 25,7% tiveram resolução completa. O ronco persistente teve valor preditivo positivo de 47,7%, e a obesidade persistente foi o fator de risco mais forte para a progressão (OR 7,95). Isso significa que o ronco infantil costuma ter bom desfecho, mas não pode ser ignorado.

Li AM, Zhu Y, Au CT, Lee DLY, Ho C, Wing YK. Natural history of primary snoring in school-aged children: a 4-year follow-up study. Chest 2013. PMID 23099418

Os sintomas de apneia do sono em crianças, segundo a descrição clínica usual (sem estudo citado aqui), são ronco frequente, sono agitado, respiração pela boca (veja dormir de boca aberta), pausas respiratórias observadas e, às vezes, desatenção ou agitação durante o dia. O que causa apneia do sono em crianças é, na maior parte dos casos, o aumento de amígdalas e adenoides, e a obesidade também pesa, como no estudo acima. A avaliação é do pediatra e do otorrinolaringologista, e não deve esperar muito.

Dormir com barulho de ronco faz mal para quem ouve?

Existe também o lado de quem ouve. Dormir com barulho de ronco faz mal? Há um estudo pequeno e honesto por trás da resposta. Dez casais dormiram ao mesmo tempo em polissonografia, e na metade da noite o paciente com apneia passou a usar um aparelho de pressão que eliminou o ronco e as pausas. Na parceira ou no parceiro, o índice de despertares caiu de 21 para 12 por hora, e a eficiência do sono subiu de 74% para 87%, o que dá cerca de 62 minutos de sono a mais por noite. É um grupo pequeno e só de pacientes homens, mas mostra que o ronco prejudica o sono de quem está ao lado, mesmo de quem se acha acostumado.

Beninati W, Harris CD, Herold DL, Shepard JW. The effect of snoring and obstructive sleep apnea on the sleep quality of bed partners. Mayo Clin Proc 1999. PMID 10918859

O que fazer com isso: descobrir se o ronco tem pausas

A pergunta que decide tudo é se o seu ronco vem com pausas. Dentro do sono, você não tem como saber. O SleepTrace grava a noite no próprio celular, marca o ronco e possíveis pausas com horário e deixa você ouvir esses trechos. Ele mostra um padrão e ajuda a decidir se vale pedir avaliação, e não faz diagnóstico nem é um dispositivo médico. O exame que confirma é a polissonografia ou o teste do sono em casa, pedidos por um médico, como explica qual médico trata ronco.

Peça avaliação médica se há pausas na respiração observadas, engasgos, sonolência forte durante o dia ou ao dirigir, pressão alta difícil de controlar, dor de cabeça ao acordar ou ronco muito alto todas as noites. Em crianças, ronco frequente com sono agitado ou dificuldade de atenção também deve ser visto. Este texto descreve estudos e não faz diagnóstico.

Perguntas frequentes

O barulho do ronco em si não tem estudo que mostre que mate. O risco aparece na apneia do sono: em 18 anos de seguimento de 1.522 pessoas, a apneia grave se associou a 3,0 vezes o risco de morte por qualquer causa, comparada a nenhuma apneia. O ronco simples, sem pausas, é um motivo para avaliar e tratar os fatores que o pioram, e não para pânico.

Depende do que o ronco é. A apneia do sono se associou a pressão alta (2,89 vezes a chance quando o índice é de 15 ou mais eventos por hora) e a AVC, e há associação com morte cardiovascular. Para o ronco isolado, os dados se contradizem: uma meta-análise ligou o ronco a 46% mais risco de AVC, mas um seguimento de 4 anos não mostrou piora na carótida. Só um exame do sono mostra se você tem apneia.

Fragmenta o sono, o que causa cansaço, sonolência e dor de cabeça ao acordar. A longo prazo se associou a pressão alta, AVC, morte cardiovascular e a mais risco de doença neurocognitiva, incluindo Alzheimer (razão de risco 1,28). São associações em estudos observacionais, e a apneia tem tratamento.

Há associação em estudos grandes: no Sleep Heart Health Study, homens com índice de apneia acima de 19 tiveram razão de risco ajustada de 2,86 para AVC isquêmico, e uma meta-análise encontrou odds ratio de 2,24. Em mulheres o aumento só apareceu acima de 25 eventos por hora. Os estudos mostram associação e não provam causa em cada pessoa.

Merece avaliação. Em 70 crianças com ronco primário, 37,1% progrediram para apneia em 4 anos, 7,1% para formas moderadas a graves, e a obesidade persistente foi o maior fator de risco. A causa mais comum em crianças é o aumento de amígdalas e adenoides, e quem avalia é o pediatra ou o otorrino.

Na grande maioria dos casos sim, mas existe apneia sem ronco audível, e nem todo roncador tem apneia. Por isso o que conta é o padrão: pausas, engasgos e cansaço. Apneia e ronco não são a mesma coisa.

SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.


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