Para ronco sem outros sintomas, a porta de entrada costuma ser o otorrinolaringologista, que examina nariz, boca e garganta. Se há pausas na respiração, engasgos ou sono forte durante o dia, o caminho passa por um médico do sono, que no Brasil é um médico de outra especialidade (pneumologia, neurologia, otorrinolaringologia, psiquiatria, pediatria ou clínica médica) com formação em medicina do sono. O exame padrão para apneia é a polissonografia; o teste em casa serve para adultos sem complicações e com sinais de risco de apneia moderada a grave. Questionários e aplicativos não fecham diagnóstico: a diretriz americana recomenda não usá-los para isso. A gravação da noite entra como relato a mais, e não como exame.
Você decidiu que o ronco merece uma consulta, e agora vem a pergunta prática que trava muita gente: com qual médico? A resposta que se ouve em casa («vai num otorrino») está meio certa. A que aparece nos cartazes de clínica («médico do sono») também. O que separa as duas é uma pergunta anterior: o seu ronco é só barulho, ou vem com pausas na respiração e cansaço no dia seguinte?
Qual médico trata ronco: do otorrino ao médico do sono
Qual médico cuida do ronco, afinal? A resposta tem duas etapas. Primeiro, quem examina a causa do barulho. Depois, quem investiga se há apneia. Cada etapa tem um ou mais profissionais:
- Otorrinolaringologista. Olha nariz, boca e garganta. É o médico das causas anatômicas: desvio de septo, rinite que entope, amígdalas grandes, palato mole longo. Costuma ser a porta de entrada de quem ronca sem sinais de apneia.
- Médico do sono. Não é uma especialidade isolada. A medicina do sono é uma área de atuação reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, e atuam nela médicos com residência ou título em pneumologia, neurologia, otorrinolaringologia, psiquiatria, pediatria ou clínica médica, além da formação em sono. É quem pede e interpreta o exame do sono e conduz o caso de apneia.
- Pneumologista. Muitos médicos do sono são pneumologistas. Costumam cuidar da apneia, do aparelho de pressão de ar e das doenças pulmonares que se misturam ao quadro.
- Clínico geral ou médico de família. Em geral é o primeiro ponto, sobretudo no SUS, onde o caminho costuma passar pela unidade de saúde e o encaminhamento ao especialista sai de lá.
- Pediatra e otorrinolaringologista, no caso de crianças. Ronco infantil tem causas próprias, como amígdalas e adenoides, e deve ser avaliado por quem trata crianças.
Em resumo: ronco isolado, comece pelo otorrinolaringologista ou pelo clínico. Ronco com pausas, engasgos, sono forte de dia ou pressão alta, vá direto a um médico do sono, ou peça ao clínico o encaminhamento. Sobre quem pode atuar nessa área, a resolução do Conselho Federal de Medicina de maio de 2024 definiu a medicina do sono como ato médico exclusivo e lista as especialidades de base citadas acima (notícia do CFM de 8/5/2024, lida em 20/10/2026; confira as regras vigentes).
Médico do ronco ou médico da apneia: quem entra em cada caso
Qual médico procurar para ronco? O «médico do ronco», como muita gente diz, não existe como especialidade, e não há um único médico para ronco em todos os casos. O nome na porta importa menos do que a pergunta clínica por trás: existe só um barulho, ou existe uma respiração que para?
Se o seu caso cabe na coluna da direita, vale ler como saber se tem apneia do sono antes da consulta. Se cabe na da esquerda, o artigo como diminuir o ronco mostra o que se pode testar enquanto isso.
Qual médico cuida de apneia do sono, e onde entra o dentista
E para a apneia, qual médico cuida de apneia do sono? Na prática, é o médico do sono (muitas vezes um pneumologista, um neurologista ou um otorrino). Ele pede o exame, interpreta o resultado, define a gravidade e indica o tratamento que cabe.
O dentista aparece em uma parte da história. A diretriz conjunta da Academia Americana de Medicina do Sono e da Academia Americana de Medicina Odontológica do Sono recomenda que médicos do sono prescrevam aparelhos intraorais para adultos com ronco simples que peçam tratamento e, no caso de apneia, que um dentista treinado use um aparelho feito sob medida e ajustável. Também pede que o dentista acompanhe os efeitos nos dentes e que o médico confira a eficácia com um novo exame. O dentista entra depois do diagnóstico médico, não no lugar dele.
Ramar K, Dort LC, Katz SG, Lettieri CJ, Harrod CG, Thomas SM, Chervin RD. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Snoring with Oral Appliance Therapy: An Update for 2015. J Clin Sleep Med 2015. PMID 26094920
Exame de ronco: como é feito e qual exame detecta apneia do sono
Não existe um «exame do ronco» isolado. O que existe é a avaliação clínica: história do sono, medidas como peso e circunferência do pescoço, pressão arterial, exame do nariz, da boca e da garganta. Quando há suspeita de apneia, entra o exame do sono. Qual exame detecta apneia do sono, e como diagnosticar apneia do sono na prática? Há duas respostas, e a escolha entre elas é do médico.
A polissonografia completa, feita em laboratório, registra respiração, oxigênio, ondas cerebrais e movimentos durante a noite inteira. O estudo populacional de São Paulo, por exemplo, mediu 1.042 voluntários com polissonografia completa e encontrou apneia em 32,8% deles. O teste do sono em casa é um aparelho mais simples, com menos canais, usado no próprio quarto.
Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med 2010. PMID 20362502
A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono para o diagnóstico define quando usar cada um. A polissonografia é o padrão. O teste em casa, com um aparelho tecnicamente adequado, é recomendado para adultos sem complicações e com sinais e sintomas que indicam maior risco de apneia moderada a grave. Se um teste em casa der negativo, inconclusivo ou tecnicamente inadequado, repete-se com polissonografia. E a polissonografia é preferida ao teste em casa em quem tem doença cardíaca ou pulmonar importante, doença neuromuscular, suspeita de hipoventilação, uso crônico de opioides, história de AVC ou insônia grave. A mesma diretriz recomenda que ferramentas clínicas, questionários e algoritmos de predição não sejam usados para diagnosticar apneia sem polissonografia ou teste em casa.
Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S, Kuhlmann DC, Mehra R, Ramar K, Harrod CG. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med 2017. PMID 28162150
Como é a noite do exame? Na polissonografia em laboratório, dorme-se fora de casa, com sensores no corpo, e o desconforto é o preço de medir a noite inteira, algo que nenhum questionário consegue. O médico explica o tipo de exame, o preparo e onde fazer.
Questionários e aplicativos: triagem não é diagnóstico
O mais conhecido dos questionários é o STOP, com quatro perguntas de sim ou não sobre ronco, cansaço durante o dia, apneia observada e pressão alta. Em 2.467 pacientes de pré-operatório, 27,5% foram classificados como de alto risco. Entre os 177 que fizeram polissonografia para a validação, a sensibilidade do STOP foi de 65,6%, 74,3% e 79,5% para índices de apneia acima de 5, 15 e 30. Somando índice de massa corporal, idade, circunferência do pescoço e sexo, a sensibilidade subiu para 83,6%, 92,9% e 100%. É uma triagem boa para decidir quem precisa de exame, e não substitui o exame.
Chung F, Yegneswaran B, Liao P, Chung SA, Vairavanathan S, Islam S, Khajehdehi A, Shapiro CM. STOP questionnaire: a tool to screen patients for obstructive sleep apnea. Anesthesiology 2008. PMID 18431116
Um aplicativo que grava a noite fica em uma situação parecida, e é bom ser claro sobre ela. Os estudos de celular como monitor de ronco são, até onde li, pequenos e de laboratório: num deles, com 40 pacientes, os autores avisaram que o uso numa casa barulhenta ainda não estava provado. O SleepTrace grava e analisa a noite no próprio celular, marca o ronco e possíveis pausas, e não é um dispositivo médico nem faz diagnóstico. O que ele faz é transformar «acho que ronco» em noites com horário, que dá para ouvir.
Nakano H, Hirayama K, Sadamitsu Y, Toshimitsu A, Fujita H, Shin S, Tanigawa T. Monitoring sound to quantify snoring and sleep apnea severity using a smartphone: proof of concept. J Clin Sleep Med 2014. PMID 24426823
O que levar à consulta para ela render
A primeira consulta costuma ser curta. O que ajuda o médico a decidir rápido:
- Desde quando você ronca e se mudou com o tempo, o peso ou algum remédio.
- O que alguém observa: pausas na respiração, engasgos, sufocos, agitação.
- Como é o dia seguinte: sono forte, cochilos involuntários, dor de cabeça ao acordar, humor, concentração.
- Pressão arterial, medicamentos, álcool e cigarro, que mexem no quadro.
- Cinco a sete noites gravadas, com dois trechos para ouvir: um de ronco comum e um em que o ronco para e volta com golfada de ar. O médico não vai diagnosticar a partir da gravação, mas ela mostra um padrão que a memória não guarda.
Se o ronco é o seu assunto principal, ronco muito alto e ronco é normal ajudam a organizar o que perguntar.
Não espere uma consulta marcada se houver sonolência forte ao dirigir, falta de ar importante, dor no peito ou sinais de AVC (fala arrastada, perda de força de um lado do corpo). Procure atendimento de urgência. Este texto é informativo e não substitui avaliação médica.
Perguntas frequentes
Para ronco sem outros sintomas, o otorrinolaringologista é a porta de entrada mais comum, e o clínico geral ou o médico de família podem encaminhar. Se há pausas na respiração, engasgos, sono forte durante o dia ou pressão alta, o caminho passa por um médico do sono, que pode ser pneumologista, neurologista, otorrino ou outro especialista com formação em medicina do sono.
Em geral o primeiro passo é a unidade básica de saúde, com o clínico ou o médico de família, que avalia o caso e encaminha ao otorrinolaringologista ou, se houver sinais de apneia, ao serviço de sono ou de pneumologia. O tempo de espera e a oferta de exames variam bastante de cidade para cidade.
O pediatra e o otorrinolaringologista. Em crianças, o ronco frequente costuma ter relação com amígdalas e adenoides aumentadas, e deve ser avaliado, sobretudo se vier com sono agitado, respiração pela boca ou dificuldade de atenção.
A polissonografia, feita em laboratório durante a noite, é o exame padrão. Para adultos sem complicações e com sinais de risco de apneia moderada a grave, um teste do sono em casa também pode ser usado, a critério do médico. Questionários e aplicativos ajudam na triagem, mas não fecham o diagnóstico.
Em alguns casos o dentista treinado em medicina do sono faz um aparelho intraoral sob medida, depois do diagnóstico e da indicação médica. O diagnóstico é do médico, e a eficácia deve ser conferida com um novo exame.
Pode e ajuda: mostra desde quando, quanto e em que posição você ronca, e se houve silêncios seguidos de golfada de ar. O médico não diagnostica a partir de um aplicativo, mas o registro economiza tempo e lembra detalhes que ninguém guarda de cabeça.
SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.
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