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Insônia em crianças: fase ou hora de ir ao pediatra?

Criança que enrola na hora de dormir é comum. Criança que passa meses sem pegar no sono, com sono ruim e dia pior, é outra conversa. Os números ajudam a separar as duas.

Por Jan Kohlhaas · 10 min de leitura · Atualizado em 21/10/2026 · Informação geral de bem-estar, não um diagnóstico médico

A resposta curta

Insônia em crianças é mais comum do que parece: num estudo com 700 crianças de 5 a 12 anos que fizeram exame do sono, os pais relataram dificuldade para dormir ou para manter o sono em 19,3%, e entre meninas de 11 a 12 anos em 30,6%. Entre adolescentes de 13 a 16 anos, 10,7% já tinham tido insônia pelos critérios do DSM-IV, e mais da metade desses tinha outro problema psiquiátrico junto. Em crianças pequenas, intervenções comportamentais (rotina fixa, resposta consistente à hora de dormir) mostraram melhora em latência e despertares noturnos numa meta-análise de 16 estudos controlados. Em adolescentes a evidência é mais fraca. Ronco alto com pausas, queixas que duram meses e sinais de ansiedade ou tristeza pedem avaliação do pediatra, não só ajuste de rotina.

São 22h40 e a luz do corredor continua acesa. Seu filho já pediu água, foi ao banheiro, contou um medo novo e agora diz que não está com sono. Você sabe que amanhã tem aula. A pergunta que aparece em silêncio é se isso já é insônia ou só criança sendo criança. A resposta depende de duas coisas que as noites isoladas não mostram: há quanto tempo isso acontece e o que acontece no dia seguinte.

O que conta como insônia em crianças e o que ainda é fase

Em adultos, insônia é a dificuldade de pegar no sono, de manter o sono ou de acordar cedo demais, apesar de haver oportunidade para dormir, com consequências durante o dia. Em crianças a definição é a mesma, mas quem relata, quase sempre, é o pai ou a mãe. Por isso os números dependem de quem respondeu.

Num estudo da Pensilvânia com 700 crianças de 5 a 12 anos, que dormiram uma noite inteira num laboratório com polissonografia, os pais relataram sintomas de insônia em 19,3%: dificuldade de dormir ou de continuar dormindo. A taxa quase não mudou (20,2%) quando as crianças com respiração alterada no sono foram retiradas da conta. O dado que mais chama atenção é outro: entre meninas de 11 e 12 anos, a taxa chegou a 30,6%, e nelas o exame de fato mostrou sono mais perturbado. Os autores sugerem que isso pode estar ligado às mudanças hormonais da puberdade, e não a ansiedade ou depressão.

Calhoun SL, Fernandez-Mendoza J, Vgontzas AN, Liao D, Bixler EO. Prevalence of insomnia symptoms in a general population sample of young children and preadolescents: gender effects. Sleep Med 2014. PMID 24333223

Mais velhos, mais dados. Numa amostra de 1.014 adolescentes de 13 a 16 anos nos Estados Unidos, 10,7% já tinham tido insônia pelos critérios do DSM-IV. A idade mediana de início foi 11 anos. Entre os que tinham história de insônia, 88% ainda tinham o problema na época da entrevista, e 52,8% tinham algum transtorno psiquiátrico associado. Nas meninas, o início da menstruação apareceu ligado a um risco 2,75 vezes maior. Um levantamento alemão de 2025, com 1.128 jovens de 10 a 17 anos que responderam a um questionário, encontrou insônia leve em 26,6%, moderada em 21,4% e grave em 1,6%. Os fatores que mais pesaram para a forma moderada e grave foram ansiedade (razão de chances de 4,54 e 7,96) e insônia de um dos pais (2,49 e 3,30).

Johnson EO, Roth T, Schultz L, Breslau N. Epidemiology of DSM-IV insomnia in adolescence: lifetime prevalence, chronicity, and an emergent gender difference. Pediatrics 2006. PMID 16452333

Wieder M, Thomasius R, Paschke K. Point Prevalence and Risk Factors for Insomnia in Children and Adolescents: Findings of a Population-Based Survey. Dtsch Arztebl Int 2025. PMID 40493886

Insônia em crianças e adolescentes: três estudos, três definições5 a 12 anos19,3%Meninas, 11 a 12 anos30,6%13 a 16 anos (na vida)10,7%10 a 17 anos (mod./grave)23%
Gráfico próprio com números dos três estudos citados. As definições e quem respondeu são diferentes (pais, entrevista, questionário do próprio jovem), então as barras não se comparam entre si. O valor de 23,0% soma a insônia moderada (21,4%) e a grave (1,6%) do levantamento alemão.

Uma ressalva que vale para tudo isso: são estudos de população, que contam sintomas. Uma criança que aparece nos números não é, por isso, uma criança que precisa de tratamento. O que decide é a combinação: o tempo que dura, o sofrimento da criança e o quanto o dia seguinte fica pior.

Por que a criança não dorme

Nos menores, de até cinco anos, a forma mais comum de insônia infantil tem nome técnico, insônia comportamental da infância, e o desenho é simples. Num grupo, a criança só consegue adormecer com uma condição que não está sempre disponível: o colo, a mamadeira, a presença do adulto, a televisão ligada. Quando acorda no meio da noite, como todo mundo acorda, ela chama a mesma condição de volta. No outro, o problema é limite: a hora de dormir vira negociação, com pedidos de água, mais uma história, mais um abraço. Uma revisão de 2010 descreve esse quadro e afirma que, sem tratamento, ele pode atrapalhar comportamento, regulação emocional e desempenho escolar, mas que os tratamentos comportamentais são eficazes e duráveis.

Meltzer LJ. Clinical management of behavioral insomnia of childhood: treatment of bedtime problems and night wakings in young children. Behav Sleep Med 2010. PMID 20582760

Em crianças maiores a lista de causas se alonga, e nenhuma explica sozinha. Ansiedade e depressão aparecem nos números alemães. A insônia dos pais também, o que pode refletir genética, ambiente da casa, ou os dois (o estudo não separa). Telas pesam bastante. Na Noruega, num levantamento com 9.846 adolescentes de 16 a 19 anos, o uso de aparelhos eletrônicos na hora de dormir e durante o dia se relacionou com sono mais curto, mais demora para adormecer e mais sono perdido; usar computador se associou a dormir menos de 5 horas com razão de chances de 2,70.

Hysing M, Pallesen S, Stormark KM, Jakobsen R, Lundervold AJ, Sivertsen B. Sleep and use of electronic devices in adolescence: results from a large population-based study. BMJ Open 2015. PMID 25643702

No Brasil, com 100.839 alunos do 9º ano na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2015, ver televisão por 8 horas ou mais por dia se associou a insônia autorrelatada, com razão de chances de 2,49 entre meninos e 1,72 entre meninas. Num outro recorte da mesma base, com 102.072 estudantes de 11 a 19 anos, até quantidades de atividade física abaixo da recomendação semanal se associaram a menos insônia, principalmente entre as meninas. São estudos transversais: mostram que as coisas andam juntas, não que uma causa a outra.

Werneck AO, Vancampfort D, Oyeyemi AL, Stubbs B, Silva DR. Associations between TV viewing, sitting time, physical activity and insomnia among 100,839 Brazilian adolescents. Psychiatry Res 2018. PMID 30273895

Santos AED, Araujo RHO, Couto JO, da Silva DRP, Silva RJDS, Silva RJDS. Daily physical activity, human development index and insomnia in a representative sample of Brazilian adolescents: a cross-sectional analysis. Sao Paulo Med J 2021. PMID 34378737

O que muda aos 7, 9 e 10 anos

Os estudos citados aqui não medem cada ano de idade separadamente. O que segue é raciocínio a partir deles, não resultado de pesquisa.

Aos 7 anos: a cama vira palco

Dos 6 aos 8 anos a imaginação cresce, e o escuro, os barulhos da casa e a ideia de ficar sozinho podem pesar mais na hora de dormir. Aqui o problema costuma ser a condição para adormecer, e a rotina fixa é o ponto de partida.

Aos 9 anos: o relógio começa a mudar

Aos 9 anos já entram a lição de casa, as telas e, em algumas crianças, as primeiras mudanças da pré-adolescência. O estudo de Calhoun mostrou que a taxa de sintomas sobe a partir dos 11 anos nas meninas, e é razoável imaginar que a transição comece antes. Uma criança que sempre dormiu bem e passa a demorar mais de uma hora para pegar no sono nessa idade merece olhar mais atento para tela, café, refrigerante e preocupações da escola.

Aos 10 anos: dormir menos que o corpo pede

Aos 10, a insônia se mistura com horários mais tardios de dormir e acordar cedo para a escola. O resultado é dívida de sono que parece insônia: a criança deita tarde, demora a adormecer e acorda cansada. A diferença só aparece olhando duas ou mais semanas de horários reais, e é para isso que serve o diário de sono, mais adiante.

Na adolescência, a insônia costuma ficar

O dado mais incômodo da pesquisa americana é a persistência: nove em cada dez adolescentes com história de insônia ainda tinham o problema. Isso muda o conselho. Esperar que passe sozinho é uma aposta pior na adolescência. Insônia em adolescentes costuma andar com ansiedade, humor deprimido e telas na cama, e o sono ruim piora as duas primeiras, num ciclo que o artigo sobre insônia e ansiedade descreve para adultos e que vale também aqui. A insônia na adolescência merece conversa franca com o jovem e, se dura meses, consulta.

O que tem prova de que funciona em crianças

Para crianças com insônia, a resposta mais forte vem de uma meta-análise de 16 estudos controlados e 12 estudos com acompanhamento dentro do mesmo grupo, com 2.560 participantes no total. Intervenções comportamentais melhoraram a latência para adormecer, o número de despertares noturnos, a duração desses despertares e a eficiência do sono em crianças típicas. Em duas pesquisas com crianças com necessidades especiais, não houve efeito significativo. Os autores classificam a evidência como moderada para crianças pequenas e baixa para crianças maiores, adolescentes e crianças com necessidades especiais, sobretudo por falta de estudos.

Meltzer LJ, Mindell JA. Systematic review and meta-analysis of behavioral interventions for pediatric insomnia. J Pediatr Psychol 2014. PMID 24947271

O que são essas intervenções, na prática? Em linhas gerais, o que a literatura comportamental descreve:

  • Hora fixa de dormir e de acordar, inclusive nos fins de semana, para que o relógio interno tenha um padrão.
  • Rotina curta e previsível antes de deitar, sempre na mesma ordem, de preferência sem tela na última hora. O estudo norueguês sustenta a associação, não prova que tirar a tela resolve.
  • Resposta consistente aos pedidos depois de deitar: os adultos escolhem uma resposta curta e a repetem, em vez de negociar a cada noite.
  • Diário de sono por duas semanas: hora de deitar, hora em que adormeceu, despertares, telas, atividade do dia. Sem esse registro, a memória dos pais costuma errar nos dois sentidos.

Medicamentos e suplementos não aparecem nessa lista de propósito. O levantamento alemão conclui que o caminho principal é não farmacológico e envolve a criança e os pais. Sobre melatonina em crianças, a decisão é do pediatra, e o texto sobre melatonina infantil explica o que se sabe.

Procure o pediatra se a dificuldade para dormir dura mais de três meses em pelo menos três noites por semana, se há ronco alto com pausas ou engasgos, dor, pernas inquietas, tristeza ou ansiedade intensas, recusa de ir à escola ou sonolência forte durante o dia. Este texto é informativo e não faz diagnóstico. Não dê remédios ou suplementos para dormir sem orientação médica. Se um adolescente fala em se machucar, ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou procure um serviço de urgência.

O que os clipes do SleepTrace podem e não podem dizer sobre o sono do seu filho

Muitas das queixas que os pais chamam de insônia têm outra causa: ronco, tosse, pesadelos, despertares com choro. Quem está do outro lado da parede ouve fragmentos e tenta montar a noite. Ouvir o quarto ajuda a separar essas causas do palpite. O SleepTrace só ouve o som e guarda clipes curtos de ronco, tosse e fala, para ouvir de manhã (no plano gratuito, 3 clipes por mês podem ser reproduzidos). Não há reprodução da noite inteira, e o app precisa ficar aberto durante a noite, com o celular no carregador. A decisão de gravar o quarto de uma criança é de quem cuida dela, e o app não faz diagnóstico nem substitui o exame do sono.

Um ponto que o estudo de Calhoun deixa claro: sintomas de insônia e respiração alterada no sono podem coexistir. Se os clipes mostrarem ronco forte, o assunto passa a ser o do artigo sobre ronco ser normal ou não, e a consulta tem que dizer isso ao pediatra. Para pesadelos e terror noturno, veja pesadelos.

Perguntas frequentes

É. Num estudo com 700 crianças de 5 a 12 anos, os pais relataram sintomas de insônia em 19,3%, e em 30,6% das meninas de 11 e 12 anos. Isso conta sintomas, não diagnóstico: o que pesa é quanto tempo dura e o quanto atrapalha o dia.

Anote por duas semanas a hora de deitar, a hora em que adormeceu e os despertares da noite. Se ele demora mais de meia hora para dormir quase toda noite, acorda cansado e a situação dura meses, vale falar com o pediatra. Se melhora com horário fixo e rotina, era mais hábito do que insônia.

Nem sempre. Em crianças pequenas, os estudos testaram intervenções comportamentais, que melhoraram a latência e os despertares; os estudos citados não dizem quanto passa sozinho. Em adolescentes a história é diferente: no estudo americano, 88% dos que tinham história de insônia ainda tinham o problema. Esperar passar é menos seguro nessa idade.

Só com orientação do pediatra. A literatura comportamental coloca a rotina e as intervenções sem remédio como primeiro passo, e o levantamento alemão de 2025 conclui que o tratamento deve ser sobretudo não farmacológico. Não dê produtos por conta própria.

Elas aparecem associadas a sono mais curto e mais demora para adormecer em estudos grandes, como o da Noruega com 9.846 adolescentes e o brasileiro com 100.839 alunos. Como são estudos transversais, mostram associação, não prova de causa. Mesmo assim, tirar a tela da última hora é uma mudança de custo baixo.

SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.


Para decidir entre esperar e ir ao pediatra, ajuda saber o que acontece na noite da criança. O SleepTrace marca ronco, tosse e fala e mostra possíveis pausas respiratórias com horário. Ele não mede o tempo para adormecer, nem medo ou rotina, não é monitor de bebê e não substitui o pediatra.

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