O ronco tem um componente genético: num estudo do UK Biobank com cerca de 408 mil pessoas, as variações comuns do DNA medidas explicaram cerca de 10% da diferença entre quem ronca e quem não ronca; quanto o DNA pesa no total, esse tipo de estudo não mede. A ligação com o índice de massa corporal apareceu em análise genética. O sexo também pesa: em São Paulo, a chance de apneia era 4,1 vezes maior em homens, e no estudo suíço HypnoLaus a apneia moderada a grave estava presente em 49,7% dos homens, em 8,6% das mulheres antes da menopausa e em 29,4% das mulheres depois dela. Na gravidez, o ronco que começa durante a gestação esteve ligado a pressão arterial mais alta. Os fatores que podem mudar são o peso, o álcool, o cigarro e a posição de dormir.
Seu pai roncava. Seu irmão ronca. Agora você ronca, e a pergunta aparece sozinha: é de família? O DNA entra na conta, mas a família também divide o peso, os hábitos, a casa e a fase da vida, e os estudos não separam uma coisa da outra com facilidade.
Ronco é genético? O que dizem os estudos de genes e de família
O maior estudo genético sobre ronco usou dados do UK Biobank, com cerca de 408 mil pessoas, das quais cerca de 152 mil roncavam. Os pesquisadores encontraram 42 regiões do genoma associadas ao ronco e estimaram que as variações comuns do DNA medidas explicam cerca de 10% da diferença entre quem ronca e quem não ronca (a chamada herdabilidade baseada em variantes). Quanto o DNA pesa no total, esse tipo de estudo não mede. Houve correlação genética com índice de massa corporal, consumo de álcool, tabagismo e neuroticismo, entre outros traços, e uma análise de randomização mendeliana sugeriu uma relação causal possível entre IMC alto e ronco.
Campos AI, García-Marín LM, Byrne EM, Martin NG, Cuéllar-Partida G, Rentería ME. Insights into the aetiology of snoring from observational and genetic investigations in the UK Biobank. Nat Commun 2020. PMID 32060260
Um estudo com 100.626 chineses chegou a quatro regiões novas e propôs que elas apontam para o formato das vias aéreas superiores e do rosto, além do metabolismo. Uma análise genética de randomização mendeliana apontou IMC, peso e pressão arterial mais altos como causas do ronco e um efeito no sentido contrário entre o ronco e a pressão diastólica.
Zhu Y, Zhuang Z, Lv J et al. A genome-wide association study based on the China Kadoorie Biobank identifies genetic associations between snoring and cardiometabolic traits. Commun Biol 2024. PMID 38461358
Os dados de família vão na mesma direção, sem separar genes de ambiente. Numa coorte finlandesa com 947 crianças, as que tinham pai ou mãe roncando todas as noites roncavam mais, com razões de chances de 3,2 (mãe) e 3,4 (pai), e a presença de ronco dos pais seguiu associada ao ronco da criança depois do ajuste (2,8). Em bebês de três e oito meses, o ronco dos pais e o cigarro da mãe também estiveram ligados ao ronco do bebê. Famílias partilham DNA, mas também moradia, alimentação, fumaça e, às vezes, o formato do rosto, de modo que o estudo não consegue dizer quanto vem de cada coisa.
Katila M, Saarenpää-Heikkilä O, Saha MT et al. Prevalence and evolution of snoring and the associated factors in two-year-old children. Sleep Med 2021. PMID 34186453
Katila M, Saarenpää-Heikkilä O, Saha MT, Vuorela N, Paavonen EJ. Parental reports showed that snoring in infants at three and eight months associated with snoring parents and smoking mothers. Acta Paediatr 2019. PMID 30791132
Na prática: ter um parente que ronca aumenta a chance, mas a parte do DNA que esses estudos medem é pequena, e o resto fica nos fatores que o artigo sobre o que pode estar por trás do ronco descreve.
Homens roncam mais: o que os números mostram
Os homens roncam mais e têm mais apneia, em quase todo estudo de população. Em Busselton, na Austrália, ser homem foi o fator mais forte para virar roncador habitual em 14 anos (razão de chances de 3,5). Em Pelotas, o ronco habitual era 25% mais frequente entre homens (razão de prevalência de 1,25) e 62% mais frequente entre idosos (1,62). Em São Paulo, num estudo com 1.042 adultos que fizeram polissonografia, a chance de apneia era 4,1 vezes maior em homens do que em mulheres.
Knuiman M, James A, Divitini M, Bartholomew H. Longitudinal study of risk factors for habitual snoring in a general adult population: the Busselton Health Study. Chest 2006. PMID 17166996
Noal RB, Menezes AM, Canani SF, Siqueira FV. Habitual snoring and obstructive sleep apnea in adults: population-based study in Southern Brazil. Rev Saude Publica 2008. PMID 18372974
Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med 2010. PMID 20362502
O estudo suíço HypnoLaus, que fez polissonografia em casa em 2.121 pessoas de 40 a 85 anos, mostra o tamanho da diferença: a apneia moderada a grave (15 ou mais eventos por hora) estava presente em 49,7% dos homens e em 23,4% das mulheres. Uma revisão de 2024 resume que cerca de 45% dos adultos roncam de vez em quando e 25% regularmente, com mais homens. Por que os homens roncam mais não é respondido pelos estudos sobre a diferença entre os sexos; eles medem a diferença, não o mecanismo.
Heinzer R, Vat S, Marques-Vidal P et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in the general population: the HypnoLaus study. Lancet Respir Med 2015. PMID 25682233
Moffa A, Giorgi L, Nardelli D et al. The Potential Effect of Changing Patient Position on Snoring: A Systematic Review. J Pers Med 2024. PMID 39063969
Mulheres: o que a menopausa muda
Homens e mulheres não roncam na mesma proporção, e a menopausa é o ponto em que a diferença entre os sexos diminui. O próprio estudo HypnoLaus, numa análise de 2018 que separou 1.097 mulheres em antes e depois da menopausa (769 estavam na pós-menopausa), mostrou que a apneia com mais de 15 eventos por hora era de 8,6% nas mulheres antes da menopausa, 29,4% nas depois da menopausa e 49,7% nos homens. A apneia leve ou pior (mais de 5 eventos por hora) estava em 35,1%, 71,6% e 83,8%. Nas mulheres, a apneia esteve associada a hipertensão e depressão; nos homens, ao diabetes.
Heinzer R, Marti-Soler H, Marques-Vidal P et al. Impact of sex and menopausal status on the prevalence, clinical presentation, and comorbidities of sleep-disordered breathing. Sleep Med 2018. PMID 30081384
Um estudo mais antigo, com 12.219 mulheres e 4.364 homens entrevistados e cerca de 1.000 mulheres e 741 homens avaliados em laboratório, encontrou apneia clinicamente definida em 3,9% dos homens e 1,2% das mulheres (razão de 3,3 para 1). Entre as mulheres, a taxa foi de 0,6% antes da menopausa e de 2,7% em mulheres pós-menopausa sem reposição hormonal, valor próximo ao dos homens. Os autores concluem que a menopausa é um fator de risco importante. A reposição hormonal não é o assunto deste texto, e qualquer decisão sobre ela é do ginecologista. Em São Paulo, a menopausa explicou o aumento de risco entre mulheres de nível socioeconômico mais baixo (razão de chances ajustada por idade de 2,1).
Bixler EO, Vgontzas AN, Lin HM et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in women: effects of gender. Am J Respir Crit Care Med 2001. PMID 11254512
Numa pesquisa sueca com 6.817 mulheres a partir de 20 anos, 7,6% roncavam de modo habitual, e o pico (14%) estava na faixa de 50 a 59 anos, coerente com esse quadro. O artigo sobre a causa do ronco feminino traz mais detalhes dessa fase.
Svensson M, Lindberg E, Naessen T, Janson C. Risk factors associated with snoring in women with special emphasis on body mass index: a population-based study. Chest 2006. PMID 16608941
Gravidez: quando o ronco começa durante a gestação
A gravidez é outra fase em que o ronco pode começar. Numa coorte de 1.305 gestantes nos Estados Unidos, um terço relatou ronco habitual antes da gravidez e mais 23% passaram a roncar durante ela. As mulheres com ronco que começou na gestação tiveram pressão arterial média mais alta que as demais, com diferença perceptível já por volta da 18ª semana e, ao final, de cerca de 3 mmHg na pressão sistólica na 40ª semana; nas que já roncavam antes, a diferença surgiu no terceiro trimestre. Numa coorte de 128 mulheres de alto risco (obesidade, hipertensão, diabetes, pré-eclâmpsia anterior ou gêmeos), a proporção com apneia moderada ou grave subiu de 9% no início da gestação para 12% no terceiro trimestre, e a incidência de apneia nova foi de 20%.
Dunietz GL, Hao W, Shedden K et al. Maternal habitual snoring and blood pressure trajectories in pregnancy. J Clin Sleep Med 2022. PMID 34170225
Facco FL, Ouyang DW, Zee PC, Grobman WA. Sleep disordered breathing in a high-risk cohort prevalence and severity across pregnancy. Am J Perinatol 2014. PMID 24515622
Uma metanálise de 35 estudos concluiu que o ronco em si parecia aumentar o risco de diabetes gestacional, de hipertensão e de pré-eclâmpsia, o que faz do ronco na gestação um assunto para o obstetra, e não só para a cama. São associações de grupo, não uma previsão para cada gestante.
Li L, Zhao K, Hua J, Li S. Association between Sleep-Disordered Breathing during Pregnancy and Maternal and Fetal Outcomes: An Updated Systematic Review and Meta-Analysis. Front Neurol 2018. PMID 29892255
O que dá para mudar
Genes, sexo e idade não mudam, e o que sobra para trabalhar são os fatores sobre os quais os estudos mostram associação: peso (em Wisconsin, 10% de perda de peso previu queda de 26% no índice de apneia), álcool, cigarro e posição de dormir. O texto como diminuir o ronco reúne o que a pesquisa mediu em cada uma,.
Ronco com pausas, engasgos, sonolência forte de dia ou pressão alta pede avaliação médica, em qualquer idade e em qualquer sexo. Na gravidez, converse com o obstetra sobre o ronco novo ou que piorou.
O SleepTrace só ouve o som: reconhece ronco, fala e tosse e guarda clipes curtos desses eventos (no plano gratuito, 3 clipes por mês podem ser reproduzidos). Para quem quer saber se o ronco é de família e o que o piora, a vantagem é acompanhar várias noites e anotar o que mudou, como bebida, resfriado e posição. O app precisa ficar aberto durante a noite, com o celular no carregador. O indicador de apneia do sono do app é só uma triagem e não faz diagnóstico, e quem decide sobre exame é o médico.
Perguntas frequentes
Em parte. Num estudo do UK Biobank com cerca de 408 mil pessoas, as variações comuns do DNA medidas explicaram cerca de 10% da diferença entre quem ronca e quem não ronca, e houve ligação genética com o índice de massa corporal. Quanto o DNA pesa no total, esse tipo de estudo não mede. Estudos de família mostram que filhos de pais que roncam roncam mais, mas não separam genes de ambiente.
Os estudos medem a diferença, não o motivo. Em Busselton, ser homem aumentou a chance de virar roncador habitual (razão de chances de 3,5), em São Paulo a chance de apneia era 4,1 vezes maior em homens, e no HypnoLaus a apneia moderada a grave estava em 49,7% dos homens e 23,4% das mulheres.
Os estudos mostram mais apneia depois da menopausa. No HypnoLaus, a apneia moderada a grave era de 8,6% antes da menopausa e de 29,4% depois, e um estudo mais antigo encontrou 0,6% contra 2,7% em mulheres sem reposição hormonal. São associações de estudos de população.
É um assunto para o obstetra. Num estudo com 1.305 gestantes, quem passou a roncar durante a gravidez teve pressão arterial mais alta, e uma metanálise de 35 estudos associou o ronco a diabetes gestacional, hipertensão e pré-eclâmpsia. Isso é associação de grupo, não uma previsão para cada gestante.
Genes e sexo não mudam, mas peso, álcool, cigarro e posição de dormir aparecem nos estudos como fatores modificáveis. Em Wisconsin, uma perda de 10% do peso previu queda de 26% no índice de apneia. Ronco com pausas ou sonolência forte pede avaliação médica.
SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.
A genética explica só parte do ronco, e peso, álcool e idade pesam também. Em vez de supor, o SleepTrace deixa você ver o seu caso: ronco com horário, trechos para ouvir e possíveis pausas respiratórias, noite após noite. Ele não lê o DNA nem a herança da família, e um registro ruim pede consulta, não resignação.
Ouça a sua própria noite. O SleepTrace transforma uma noite de áudio nas suas fases de sono e nos sons que você fez. Funciona sem wearable, melhor com um. Só o celular no criado-mudo já basta para começar. Baixar para iPhone e Android →