Num estudo australiano com 967 adultos que não roncavam, 13% passaram a roncar de forma habitual em 14 anos; ser homem (razão de chances de 3,5), ganhar peso (1,55 por 2,3 kg/m²), desenvolver asma (2,8) e começar a fumar (2,2) foram os fatores independentes. Em outro estudo, um ganho de 10% no peso previu um aumento de cerca de 32% no índice de apneia e uma perda de 10% previu queda de 26%. Nariz entupido à noite, álcool e dormir de costas também aparecem nos estudos como ligados ao ronco. Ronco com pausas, engasgos, sonolência de dia ou pressão alta pede avaliação, porque em São Paulo a apneia foi encontrada em 32,8% dos adultos que fizeram exame do sono.
O ronco de uma pessoa tem história. Há quem ronque desde jovem e quem passe a roncar aos 45. Há quem ronque só depois de uma festa e quem tenha ronco todas as noites. Antes de procurar a causa, convém separar o ronco antigo e estável do ronco novo, mais alto ou que mudou de característica, porque os estudos mostram quais fatores empurram uma pessoa de um lado para o outro. A pergunta «o que causa o ronco» raramente tem uma resposta só, e é por isso que as seções abaixo ordenam as causas pelo peso que os estudos lhes dão.
Ronco: o que pode ser quando surge ou piora com o tempo
O melhor retrato de quem passa a roncar vem de um estudo de Busselton, na Austrália. Os pesquisadores acompanharam 967 adultos de 25 a 74 anos que não roncavam em 1981 e voltaram a perguntar em 1994 e 1995. No fim, 13% tinham virado roncadores habituais. Duas coisas se destacaram: ser homem (razão de chances de 3,5) e o índice de massa corporal inicial (1,4 para cada 3,4 kg/m² a mais). Depois de considerar isso, nada do que existia no começo, como tamanho do corpo, hábitos ou alergia, previa quem passaria a roncar. Já o que mudou ao longo dos anos pesou: ganhar peso (1,55 para cada 2,3 kg/m² a mais), desenvolver asma (2,8) e começar a fumar (2,2).
Knuiman M, James A, Divitini M, Bartholomew H. Longitudinal study of risk factors for habitual snoring in a general adult population: the Busselton Health Study. Chest 2006. PMID 17166996
Peso: o fator mais bem medido
O ronco aparece quando os tecidos em volta da garganta ficam mais volumosos ou mais moles e o ar passa apertado. O ganho de peso é o fator que mais aparece nos estudos. Em Wisconsin, 690 trabalhadores com idade média de 46 anos foram avaliados duas vezes com quatro anos de intervalo, e o peso foi comparado com o índice de apneia-hipopneia (IAH). Um ganho de 10% no peso previu um aumento de cerca de 32% no IAH (intervalo de 20% a 45%), e uma perda de 10% previu queda de 26% (18% a 34%). Um ganho de 10% também multiplicou por 6 a chance de passar a ter apneia moderada a grave. O estudo mede o índice de apneia, não o ronco isoladamente.
Peppard PE, Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J. Longitudinal study of moderate weight change and sleep-disordered breathing. JAMA 2000. PMID 11122588
Em mulheres, o peso também pesa, mas a história tem nuances. Numa pesquisa sueca com 6.817 mulheres a partir de 20 anos, 7,6% roncavam de forma habitual, com pico de 14% entre 50 e 59 anos. O ronco esteve ligado ao índice de massa corporal, à circunferência do pescoço e ao hábito de fumar 10 ou mais cigarros por dia. A dependência de álcool só contou nas mulheres com IMC abaixo de 20, e a inatividade física, só nas com IMC de 30 ou mais.
Svensson M, Lindberg E, Naessen T, Janson C. Risk factors associated with snoring in women with special emphasis on body mass index: a population-based study. Chest 2006. PMID 16608941
Nariz entupido, alergia e asma
Quando o nariz fecha, o ar passa por um espaço menor, e a garganta pode vibrar. No estudo de Wisconsin sobre obstrução nasal, a equipe analisou questionários de 4.927 pessoas e medidas feitas em laboratório em 911. Quem tinha sintomas de rinite à noite em 5 ou mais noites por mês tinha muito mais chance de relatar ronco habitual, cansaço excessivo de dia ou sono pouco reparador. Os roncadores habituais tinham fluxo de ar menor que os não roncadores, e quem relatava congestão nasal por alergia tinha 1,8 vez mais chance de apneia moderada a grave. Os autores lembram que a rinite alérgica é causa comum de obstrução nasal e um fator modificável, e pedem mais estudos.
Young T, Finn L, Kim H. Nasal obstruction as a risk factor for sleep-disordered breathing. The University of Wisconsin Sleep and Respiratory Research Group. J Allergy Clin Immunol 1997. PMID 9042068
A asma entrou na lista do estudo australiano (razão de chances de 2,8 para quem passou a ter a doença). O quadro de nariz, garganta e pulmão costuma ser avaliado em conjunto.
Álcool, cigarro e a noite anterior
Uma revisão sistemática com metanálise juntou 13 estudos, com 279 pacientes e polissonografia, e comparou noites com e sem álcool. O consumo de álcool aumentou o IAH em média 3,98 eventos por hora (intervalo de 3,27 a 4,68) e reduziu a menor saturação de oxigênio em 2,72 pontos percentuais. Os autores associam o álcool a ronco mais intenso, sono alterado e piora da apneia em pessoas suscetíveis. Em Pelotas, num inquérito com 3.136 adultos, quem consumia álcool tinha uma razão de prevalência de 1,17 para o ronco habitual, e os fumantes, de 1,15.
Burgos-Sanchez C, Jones NN, Avillion M et al. Impact of Alcohol Consumption on Snoring and Sleep Apnea: A Systematic Review and Meta-analysis. Otolaryngol Head Neck Surg 2020. PMID 32513091
Noal RB, Menezes AM, Canani SF, Siqueira FV. Habitual snoring and obstructive sleep apnea in adults: population-based study in Southern Brazil. Rev Saude Publica 2008. PMID 18372974
O cigarro merece uma observação à parte. Na mesma pesquisa de Pelotas e no estudo australiano ele aparece ligado ao ronco. Já uma metanálise de 14 estudos observacionais sobre apneia não encontrou associação com tabaco, mas encontrou com álcool (razão de chances de cerca de 1,33), com qualidade de evidência baixa a muito baixa. O contraste lembra que ronco e apneia não são a mesma coisa, e nenhuma das duas relações serve para prometer resultado individual.
Taveira KVM, Kuntze MM, Berretta F et al. Association between obstructive sleep apnea and alcohol, caffeine and tobacco: A meta-analysis. J Oral Rehabil 2018. PMID 29971810
Dormir de costas
Uma revisão sistemática de 2024 sobre mudança de posição para o ronco resume que aparelhos de posição (travesseiros e alarmes de vibração) e a elevação da cabeceira reduziram o ronco nos estudos, ao ampliar a área da via aérea. Os autores citam limites, como desconforto e intolerância à cabeceira elevada, e pedem estudos que comparem os aparelhos entre si. Eles também lembram que cerca de 45% dos adultos roncam de vez em quando e 25% regularmente, com mais homens e um aumento entre as mulheres após a menopausa. Muita gente nota que o ronco piora quando dorme de costas, e a explicação usual é que a gravidade empurra a língua e o palato para trás, mecanismo geralmente descrito e não resultado dessa revisão.
Moffa A, Giorgi L, Nardelli D et al. The Potential Effect of Changing Patient Position on Snoring: A Systematic Review. J Pers Med 2024. PMID 39063969
Ronco alto e apneia: quando pede exame
Ronco alto não é, por si só, prova de apneia, e ronco baixo não a exclui. O que muda a conversa são os sinais que acompanham o barulho: pausas vistas por quem dorme perto, engasgos, sonolência forte durante o dia, dor de cabeça pela manhã e pressão arterial difícil de controlar. Em Lausanne, o estudo HypnoLaus fez polissonografia em casa em 2.121 pessoas de 40 a 85 anos (idade mediana de 57), e a apneia moderada a grave (15 ou mais eventos por hora) esteve presente em 23,4% das mulheres e 49,7% dos homens; os autores atribuem parte desses números altos à sensibilidade das técnicas e dos critérios atuais. Em São Paulo, o EPISONO encontrou apneia em 32,8% dos 1.042 adultos que fizeram polissonografia.
Heinzer R, Vat S, Marques-Vidal P et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in the general population: the HypnoLaus study. Lancet Respir Med 2015. PMID 25682233
Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med 2010. PMID 20362502
Os números mudam conforme o método e a idade, mas apontam para o mesmo lado: muita gente tem apneia sem saber. Por isso, ronco novo, mais alto ou acompanhado desses sinais vale uma conversa com o médico. O artigo sobre se o ronco faz mal trata das consequências, e o texto sobre o exame de ronco explica o que o médico pode pedir.
Procure um médico se há pausas na respiração, engasgos ou sufocamento durante o sono, sonolência forte durante o dia, dor de cabeça ao acordar ou pressão alta de difícil controle. Quem decide sobre exame é o médico.
Ronco alto e ronco excessivo: o que o volume diz e o que ele não diz
A queixa costuma chegar assim: «meu marido foi dormir no sofá porque eu ronco». Quase sempre vem do parceiro, porque «eu ronco demais?» é uma pergunta que ninguém consegue responder sozinho: quem dorme não ouve. Não existe um limite oficial em decibéis para chamar um ronco de excessivo, mas alguns estudos mediram o volume e compararam com o exame do sono.
Num estudo com 1.643 roncadores habituais encaminhados para avaliação de apneia, com medida objetiva da intensidade durante a polissonografia, a intensidade média subiu de 46,3 dB nos que não tinham apneia para 60,5 dB nos casos mais graves (índice de apneia acima de 50 por hora), com correlação de 0,66 entre volume e índice. Em 404 pacientes que fizeram um teste do sono em casa, a média foi de 44,0 dB sem apneia a 50,5 dB na apneia grave, e a correlação foi mais fraca (0,39). A tendência existe, mas as médias de grupos vizinhos ficam próximas, como os 44,0 e 45,4 dB de quem não tinha apneia e de quem tinha apneia leve no estudo menor. Um volume isolado não classifica ninguém, e por isso os sinais que acompanham o barulho (pausas, engasgos, sono forte de dia) continuam pesando mais do que a medida em decibéis.
Maimon N, Hanly PJ. Does snoring intensity correlate with the severity of obstructive sleep apnea? J Clin Sleep Med 2010. PMID 20957849
Kim JW, Lee CH, Rhee CS, Mo JH. Relationship Between Snoring Intensity and Severity of Obstructive Sleep Apnea. Clin Exp Otorhinolaryngol 2015. PMID 26622957
O que causa o ronco alto?
O que causa ronco alto varia de pessoa para pessoa, mas os estudos desta página apontam os fatores que estreitam mais a passagem: peso, nariz fechado, álcool, dormir de costas e, em parte dos casos, a apneia. O volume também muda de uma noite para outra porque o ronco acontece em posições e fases do sono diferentes. No estudo de Nakano com 72 pacientes que se queixavam de ronco habitual, o ronco aumentou no sono não-REM mais profundo e diminuiu no sono REM, e a maioria dos roncadores sem apneia roncou menos deitada de lado.
Nakano H, Ikeda T, Hayashi M, Ohshima E, Onizuka A. Effects of body position on snoring in apneic and nonapneic snorers. Sleep 2003. PMID 12683476
Quem digita «ronco alto o que pode ser» ou «ronco muito o que fazer» costuma querer dois passos: entender a causa e saber o que fazer nesta noite. O primeiro está nas seções acima. O segundo é gravar uma noite parecida com a que incomoda, trocar uma coisa por vez (posição, álcool) e comparar, como mostra como diminuir o ronco. Se o barulho é a queixa principal, ronco muito alto trata do volume em si.
Como descobrir qual dessas causas é a sua
O caminho mais objetivo é observar por algumas semanas, sem mudar tudo ao mesmo tempo. Anote o que mudou na vida antes do ronco piorar: peso, cigarro, bebida, resfriados e alergia, posição de dormir, remédios novos. Peça a quem dorme perto que registre se há pausas. Depois, compare noites parecidas: uma com álcool e outra sem, uma de lado e outra de costas.
O SleepTrace só ouve o som: reconhece ronco, fala e tosse e guarda clipes curtos desses eventos (no plano gratuito, 3 clipes por mês podem ser reproduzidos), o que ajuda a comparar noites e mostrar um padrão ao médico. O indicador de apneia do sono do app é uma triagem e não faz diagnóstico. O app precisa ficar aberto durante a noite, com o celular no carregador. Uma noite isolada engana, e por isso o melhor é juntar várias antes de tirar conclusões. O que a pesquisa mediu em cada mudança de hábito está em como diminuir o ronco.
Perguntas frequentes
Nos estudos, os fatores mais fortes para passar a roncar foram ser homem, ganhar peso, desenvolver asma e começar a fumar. Nariz entupido à noite, álcool e dormir de costas também aparecem ligados ao ronco. Nenhum desses fatores, sozinho, diz qual é a sua causa.
Em Wisconsin, 10% a mais de peso previu aumento de cerca de 32% no índice de apneia, e 10% a menos previu queda de 26%. No estudo de Busselton, o ganho de peso aumentou a chance de virar roncador habitual. São associações de estudos de população.
Numa metanálise de 13 estudos com 279 pacientes, o álcool aumentou o índice de apneia em 3,98 eventos por hora e reduziu a menor saturação de oxigênio. Os autores associam o álcool a ronco mais intenso em pessoas suscetíveis.
Não. Ronco alto não prova apneia e ronco baixo não a exclui. Pausas na respiração, engasgos, sonolência forte e pressão alta de difícil controle mudam a conversa, e só o exame do sono confirma ou descarta a apneia.
Nem sempre. Em 1.643 roncadores habituais encaminhados para exame, a intensidade média do ronco subiu de 46,3 dB sem apneia para 60,5 dB nos casos mais graves, com correlação de 0,66 entre volume e gravidade. Num segundo estudo, com 404 pacientes, a correlação foi de 0,39. Ou seja, quanto mais alto, maior a chance, mas o volume sozinho não fecha o diagnóstico: pausas, engasgos e sono forte de dia pesam mais.
Porque ele depende de posição, fase do sono, nariz e álcool, que variam. Num estudo com 72 pacientes, o ronco aumentou no sono não-REM mais profundo e diminuiu no REM, e a maioria dos roncadores sem apneia roncou menos deitada de lado. Por isso uma noite isolada engana, e comparar várias é mais útil.
Quando há pausas observadas, engasgos, sonolência forte de dia, dor de cabeça ao acordar ou pressão alta de difícil controle, e também quando o ronco é novo, mais alto ou mudou de característica. O médico decide se é preciso exame do sono.
SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.
Ronco que surge ou piora ao longo do tempo tem causas identificáveis, e achá-las começa por medir. O SleepTrace grava só o som, marca ronco com horário e trechos para ouvir e aponta possíveis pausas respiratórias. Ele não identifica a causa, mas mostra se o ronco acompanha o peso, o álcool ou uma noite de nariz entupido, se você anotar.
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