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Exame de ronco: polissonografia, teste em casa e consulta

O ronco em si não tem um exame próprio. O que o médico procura é a causa e, principalmente, se há pausas na respiração durante o sono. Entenda o que cada teste mede, o que ele deixa escapar e como chegar à consulta com informação útil.

Por Jan Kohlhaas · 11 min de leitura · Atualizado em 02/11/2026 · Informação geral de bem-estar, não um diagnóstico médico

A resposta curta

O ronco é um sintoma, e os exames servem para descobrir se há apneia do sono e de onde vem o ronco. A diretriz americana de 2017 define a polissonografia como o exame padrão e aceita um teste de apneia feito em casa, com aparelho adequado, em adultos sem doenças associadas e com sinais de apneia moderada a grave; questionários e escores de predição, sozinhos, não devem fechar o diagnóstico. No Brasil, o questionário STOP-Bang, com pelo menos 3 pontos, teve sensibilidade de 83,5% e especificidade de 45,5% em 456 pacientes: serve de triagem, não de diagnóstico. Como o índice de apneia varia de uma noite para outra, uma única medida pode errar, e gravar o som de várias noites ajuda a levar dados concretos ao médico.

Ela dorme de lado, ele de barriga para cima, e há meses o quarto virou um lugar barulhento. Na consulta, o médico ouve o relato e diz que talvez seja preciso fazer um exame. Qual? Para o ronco? Para o quê, exatamente?

A pergunta parece simples, mas a resposta muda a forma de se preparar. O ronco em si é só um barulho. O que os exames procuram é o que pode estar por trás dele, e a coisa que mais interessa é saber se a respiração para ou fica reduzida várias vezes por noite, como acontece na apneia obstrutiva do sono.

Exame de ronco: o que existe e para que serve cada um

Na prática, entram quatro tipos de avaliação que se complementam, e nem todo mundo passa por todos.

  • Consulta e exame físico. O médico pergunta sobre o ronco, o sono, o cansaço do dia e a pressão arterial, e examina nariz e garganta, peso e pescoço.
  • Questionários de triagem. Perguntas curtas, como as do STOP-Bang, que estimam a chance de apneia sem medir nada na noite.
  • Teste de apneia do sono feito em casa. Um aparelho portátil mede a respiração e o oxigênio durante uma noite na sua cama.
  • Polissonografia. O exame mais completo, em geral feito em laboratório, que registra sono, respiração, oxigênio e outros sinais.

A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono para o diagnóstico de apneia obstrutiva em adultos resume assim: a polissonografia é o exame padrão para quem tem suspeita depois de uma avaliação completa do sono, e o teste de apneia em casa é uma alternativa para adultos sem complicações e com sinais de apneia moderada a grave. A mesma diretriz recomenda, com força, que ferramentas clínicas, questionários e algoritmos de predição não sejam usados sozinhos para diagnosticar apneia.

Kapur VK, Auckley DH, Chowdhuri S et al. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med 2017. PMID 28162150

Polissonografia: como é feita e o que o laudo traz

Na polissonografia você dorme uma noite no laboratório, com sensores no corpo: eletrodos na cabeça e no rosto que acompanham as fases do sono, cintas no tórax e no abdômen que registram o esforço respiratório, um sensor perto do nariz que mede o fluxo de ar e um clipe no dedo para o oxigênio. Um técnico acompanha tudo de outra sala. O laudo traz o índice de apneia-hipopneia (IAH), que conta quantas pausas e reduções de respiração acontecem por hora de sono, além do tempo em que o oxigênio fica baixo e de como o sono se organizou.

Em São Paulo, o estudo EPISONO usou exatamente esse método para saber quantos adultos têm apneia. Mil e quarenta e dois voluntários (55% mulheres, idade média de 42 anos) fizeram polissonografia completa, com cânula nasal, e a apneia foi encontrada em 32,8% (intervalo de 29,6 a 36,3). A chance era maior em homens do que em mulheres (razão de chances de 4,1) e em obesos do que em pessoas de peso normal (10,5), e crescia com a idade, chegando a 34,5 no grupo de 60 a 80 anos em comparação com o de 20 a 29. Os autores atribuem o número alto, em parte, a uma amostragem rigorosa, a critérios atuais, à inclusão de idosos e à alta frequência de obesidade na população estudada.

Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LR. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med 2010. PMID 20362502

A própria diretriz americana aponta quando a polissonografia deve ser preferida ao teste caseiro: em pessoas com doença cardíaca ou pulmonar importante, fraqueza muscular de origem neurológica, suspeita de respiração insuficiente quando acordado, uso crônico de opioides, história de acidente vascular cerebral ou insônia grave. Se um único teste em casa for negativo, inconclusivo ou tecnicamente ruim, o passo seguinte é a polissonografia.

O teste de apneia feito em casa: quando serve e quando não

A vantagem do teste caseiro é a praticidade: você dorme na sua cama, com um aparelho portátil. Para o adulto sem outras doenças e com sinais de risco para apneia moderada ou grave, a diretriz americana aceita esse caminho. O limite aparece quando o resultado vem normal e a suspeita continua. Nesse caso, ou quando o aparelho falha, o exame de laboratório é o recomendado.

Há ainda uma razão a mais para desconfiar de uma noite só: o índice de apneia muda de uma noite para outra. Num estudo suíço com 28 pacientes que fizeram até 10 noites de registro por radar em casa, a variação foi considerável: o erro padrão da medida do IAH foi de 5,2 eventos por hora, e a menor diferença detectável chegou a 14,4 eventos por hora. Com base em uma única medida, 17% dos pacientes seriam diagnosticados de forma errada e 32% teriam a gravidade classificada de forma errada. Depois de cinco medidas, a média se estabilizou. O consumo de álcool explicava parte da variação, com aumento de 1,7 evento por hora para cada dose.

Tschopp S, Borner U, Caversaccio M, Tschopp K. Long-term night-to-night variability of sleep-disordered breathing using a radar-based home sleep apnea test: a prospective cohort study. J Clin Sleep Med 2024. PMID 38415722

Se a decisão vem de uma noite só (radar em casa)Diagnóstico errado17%Gravidade mal classificada32%
Gráfico próprio com os números do estudo suíço de variação noite a noite do índice de apneia-hipopneia: no estudo com 28 pacientes e até 10 noites de registro, decidir com base em uma única medida levaria a diagnóstico errado em 17% e a classificação de gravidade errada em 32%. É um estudo pequeno, com um aparelho de radar específico.

O que o questionário STOP-Bang acerta e erra

O STOP-Bang reúne oito itens: ronco, cansaço, apneia observada, pressão alta, índice de massa corporal, idade, circunferência do pescoço e sexo. A versão em português foi validada no Brasil com 456 pacientes (63,8% homens, idade média de 43,7 anos), todos submetidos a polissonografia. Nessa amostra de consultório, 78,3% tinham algum grau de apneia, 52,0% moderada ou grave e 28,5% grave. Com o ponto de corte de 3 pontos ou mais, o questionário teve sensibilidade de 83,5%, especificidade de 45,5% e acurácia de 75,2% para qualquer grau de apneia. As áreas sob a curva ficaram em 0,743, 0,731 e 0,779 para apneia de qualquer grau, moderada a grave e grave. Os autores concluem que o questionário desempenha bem como triagem.

Duarte RLM, Fonseca LBM, Magalhães-da-Silveira FJ, Silveira EAD, Rabahi MF. Validation of the STOP-Bang questionnaire as a means of screening for obstructive sleep apnea in adults in Brazil. J Bras Pneumol 2017. PMID 29340495

STOP-Bang com 3 pontos ou mais, 456 pacientesSensibilidade83,5%Acurácia75,2%Especificidade45,5%
Gráfico próprio com os resultados do estudo brasileiro de validação do STOP-Bang para apneia de qualquer grau. Sensibilidade é a parte dos que têm apneia e foram apontados pelo questionário; especificidade, a parte dos que não têm e foram corretamente liberados. Mais da metade das pessoas sem apneia ainda assim pontuou 3 ou mais.

A leitura prática é a de uma peneira. O questionário pega a maior parte de quem tem apneia, mas deixa passar para o exame muita gente que no fim não precisa dele. A frase da diretriz americana continua valendo: sozinho, ele não diagnostica.

Gravar o ronco em casa: o que um aplicativo mede e o que não mede

Gravar a noite não é um exame de ronco, mas é um bom material para a consulta, porque mostra com que frequência o ronco acontece e como ele soa. Estudos que compararam aplicativos de ronco com medições de laboratório ou poligrafia mostram o seguinte:

  • Num estudo-piloto de 2015 que avaliou 13 aplicativos da loja da Apple e comparou o mais bem avaliado com a polissonografia de dois pacientes, a sensibilidade para ronco ficou entre 64% e 96% e o valor preditivo positivo entre 93% e 96%. Os autores pedem mais testes de validação.
  • Com 19 adultos saudáveis, um aplicativo comum mediu bem o ronco acima de 50% da noite (acurácia de 94,7%, sensibilidade de 100%, especificidade de 94,1%), mas não detectou eventos obstrutivos.
  • Num estudo com 201 registros de 11 pacientes, outro aplicativo teve acurácia média de 95% para ronco e sensibilidade de 78%, e as falhas aumentaram quando o paciente roncava mais.

Camacho M, Robertson M, Abdullatif J et al. Smartphone apps for snoring. J Laryngol Otol 2015. PMID 26333720

Klaus K, Stummer AL, Ruf S. Accuracy of a Smartphone Application Measuring Snoring in Adults-How Smart Is It Actually? Int J Environ Res Public Health 2021. PMID 34299777

Chiang JK, Lin YC, Lin CW, Ting CS, Chiang YY, Kao YH. Validation of snoring detection using a smartphone app. Sleep Breath 2022. PMID 33811634

Em resumo, aplicativos contam e mostram o ronco, mas não substituem a medição de pausas respiratórias. Como uma noite isolada engana, vale juntar pelo menos cinco noites para mostrar um padrão ao médico e anotar o que aconteceu em cada uma, como bebida, resfriado e posição. A lógica de cinco noites vem do estudo suíço sobre apneia, não de um estudo de ronco.

Antes da consulta: o que levar

A escolha do especialista (otorrinolaringologista para nariz e garganta, médico do sono para a dúvida da apneia) tem texto próprio em qual médico trata ronco, e os sinais que pesam mais estão em como saber se tem apneia do sono. Aqui importa o que o paciente leva. Em Pelotas, no Sul do país, um estudo com 3.136 adultos encontrou ronco habitual em 50,5% e apneia do sono estimada por questionário em 9,9%, com risco maior em homens, idosos, fumantes e obesos. O ronco é comum, mas isso não o torna irrelevante.

Noal RB, Menezes AM, Canani SF, Siqueira FV. Habitual snoring and obstructive sleep apnea in adults: population-based study in Southern Brazil. Rev Saude Publica 2008. PMID 18372974

Antes de ir, junte: quanto tempo faz que o ronco começou, em quantas noites por semana acontece, se há pausas observadas por quem dorme perto, quanta sonolência existe de dia, lista de remédios em uso (o médico perguntará) e as gravações das noites. Quanto mais concreto o relato, menos o médico depende de adivinhar.

Marque consulta sem esperar se quem dorme perto vê pausas na respiração ou engasgos, se você acorda sufocado, se a sonolência durante o dia é forte ou se a pressão arterial anda difícil de controlar. Se a sonolência é tão forte que ameaça a direção, evite dirigir até ser avaliado.

O SleepTrace só ouve o som: reconhece ronco, fala e tosse e guarda clipes curtos desses eventos (no plano gratuito, 3 clipes por mês podem ser reproduzidos). O indicador de apneia do sono do app é uma triagem, sem diagnóstico, e não substitui nenhum dos exames descritos. O app precisa ficar aberto durante a noite, com o celular no carregador.

Perguntas frequentes

O ronco em si é um sintoma. Os exames procuram o que está por trás dele, e o principal é saber se há apneia do sono. Para isso, a diretriz americana de 2017 define a polissonografia como padrão e aceita um teste feito em casa em adultos sem outras doenças e com sinais de apneia moderada a grave.

Na polissonografia você dorme uma noite no laboratório com sensores que acompanham as fases do sono, a respiração, o oxigênio e o esforço do tórax e do abdômen. O laudo traz o índice de apneia-hipopneia, que conta pausas e reduções de respiração por hora de sono.

Para adultos sem doenças associadas e com sinais de apneia moderada a grave, a diretriz americana aceita o teste em casa. Se ele der negativo, inconclusivo ou falhar, a recomendação é fazer a polissonografia. Pessoas com doença cardíaca ou pulmonar importante, uso crônico de opioides ou história de AVC devem preferir o exame de laboratório.

Não. No estudo brasileiro com 456 pacientes, 3 pontos ou mais deram sensibilidade de 83,5% e especificidade de 45,5%: o questionário aponta a maior parte dos que têm apneia, mas também muita gente que não tem. Ele serve para decidir quem deve fazer o exame.

Não como exame. Estudos com aplicativos mostram boa detecção de ronco intenso, mas eventos obstrutivos não foram detectados. A gravação serve para mostrar ao médico com que frequência você ronca, junto com o relato de quem dorme perto.

SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.


Polissonografia e teste domiciliar é que dizem se há apneia, e a consulta rende mais com dados na mão. O SleepTrace grava só o som por várias noites, marca ronco, tosse e fala com horário e aponta possíveis pausas respiratórias. É triagem, não exame: não mede oxigênio nem fluxo de ar e não substitui a polissonografia.

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