Insônia no idoso é muito frequente: no estudo nacional ELSI-Brasil, com 6.929 pessoas de 60 anos ou mais, 58,6% relataram algum tipo de insônia (49,1% inicial, 49,2% intermediária, 45,9% tardia), e 38,4% tinham sonolência diurna. O sono muda com a idade (a eficiência e a proporção de sono profundo diminuem, o tempo acordado depois de adormecer aumenta), mas as queixas se associam a doenças crônicas, sintomas respiratórios, incapacidade física, depressão e saúde autoavaliada ruim, então vale investigar em vez de aceitar como «coisa da idade». Sobre o cochilo: numa revisão de 35 estudos, cochilos curtos e moderados se associaram a melhor saúde cognitiva do que a ausência de cochilo ou cochilos longos, e em 689 idosos brasileiros o cochilo diurno se associou a quedas (razão de chances de 2,24). Numa meta-análise de 14 estudos, a terapia cognitivo-comportamental para insônia melhorou a eficiência do sono em 8,36 pontos percentuais em idosos.
«Já passei dos 60, é normal dormir mal.» A frase é tão repetida que parece fato. Os números mostram uma parte verdadeira e outra que não é. A verdadeira: o sono realmente muda com a idade, e queixas de sono são muito comuns. A que falha: tratar a queixa como se fosse só envelhecimento e não procurar o que está por trás, quando em muitos casos há algo investigável, e às vezes tratável, por trás.
Insônia no idoso: o tamanho do problema no Brasil
O melhor retrato brasileiro é o ELSI-Brasil, estudo nacional que acompanha idosos. Numa análise com 6.929 pessoas de 60 anos ou mais, os pesquisadores mediram problemas de sono relatados pela própria pessoa: insônia inicial (dificuldade para pegar no sono) em 49,1%, insônia intermediária (acordar e não voltar a dormir) em 49,2%, insônia tardia (acordar cedo demais) em 45,9% e algum tipo de insônia em 58,6%. Má qualidade de sono foi relatada por 15,6% e sonolência diurna por 38,4%. As categorias se sobrepõem: a mesma pessoa pode ter mais de um tipo, o que é a regra. O texto sobre tipos de insônia explica como cada um é definido.
Os fatores associados são úteis para entender quem está mais em risco: sexo feminino, ter duas ou mais doenças crônicas, não comer a quantidade recomendada de frutas e verduras e avaliar a própria saúde como regular ou ruim. A fração atribuível a esses fatores, estimada pelos autores, ficou entre 3% e 19%. Consumo de álcool pelo menos uma vez por mês se associou, de forma inversa, a insônia inicial, o que não é recomendação para beber, e sim um achado do tipo que pede cautela de interpretação (pode ser que quem bebe seja mais saudável, ou o contrário).
O que muda no sono com a idade: o normal
Uma meta-análise de 65 estudos, com 3.577 pessoas saudáveis de 5 a 102 anos, descreveu como o sono medido em laboratório se modifica. Em adultos, o tempo total de sono, a eficiência do sono, a proporção de sono de ondas lentas (o profundo), a de sono REM e a latência do REM diminuem com a idade, enquanto a latência para adormecer, a proporção de sono leve (estágios 1 e 2) e o tempo acordado depois de adormecer aumentam. Depois dos 60, apenas a eficiência do sono continuou a cair de forma significativa. E um detalhe importante: o tamanho dos efeitos mudava conforme os participantes eram ou não selecionados, excluindo pessoas com doenças, uso de drogas, apneia ou outros distúrbios do sono. Ou seja, boa parte do que parece «efeito da idade» nas médias é efeito de doenças que se acumulam com a idade.
Na prática: sono mais leve e mais fragmentado faz parte do envelhecimento, e é por isso que ter dois despertares noturnos aos 70 não significa o que significaria aos 25. O que o envelhecimento normal não explica é o sono que deixa o dia inteiro ruim. Para quem quer entender o que é o sono profundo e por que ele diminui, o texto sobre sono profundo ideal detalha.
Por que «é da idade» nem sempre explica
Um estudo clássico com mais de 9 mil pessoas de 65 anos ou mais, em três comunidades americanas, encontrou que mais da metade relatava pelo menos uma queixa de sono na maior parte do tempo, e que entre 23% e 34% tinham sintomas de insônia. As queixas se associavam a mais sintomas respiratórios, incapacidade física, uso de medicamentos sem receita, sintomas depressivos e pior saúde autopercebida. Os autores concluem que os distúrbios do sono, especialmente em idosos, podem frequentemente ser secundários a doenças coexistentes.
Traduzido em perguntas que vale fazer quando um idoso da família dorme mal:
- Respiração: há ronco alto, pausas e sonolência de dia? A apneia do sono aumenta com a idade e se disfarça de insônia; o texto sobre como saber se tem apneia do sono mostra os sinais.
- Dor, urgência urinária, tosse e refluxo à noite: fragmentam o sono sem que a pessoa perceba que a causa é essa.
- Medicamentos: a lista de remédios de uma pessoa idosa costuma ser longa, e alguns interferem no sono. Revisão de lista é conversa com o médico, e ninguém deve parar ou trocar por conta própria.
- Humor: depressão e ansiedade aparecem como sono ruim antes de aparecerem como tristeza.
- Rotina: pouca luz do dia, pouca atividade e horários soltos desorganizam o relógio interno.
Cochilo: ajuda ou atrapalha?
Esta é a pergunta que mais divide as famílias. A resposta curta é «depende», e a ciência ainda está construindo o resto. Uma revisão sistemática de 35 estudos (23 observacionais e 12 de intervenção) sobre cochilo e cognição em idosos encontrou, nos estudos observacionais, uma possível associação em U invertido: cochilos curtos e moderados se associaram a melhor saúde cognitiva em comparação tanto com não cochilar quanto com cochilos longos ou prolongados. Nos estudos de intervenção, uma sessão de cochilo à tarde pode ter melhorado função psicomotora e memória de trabalho, com alguma inconsistência, e o efeito de várias sessões não foi conclusivo. As autoras pedem pesquisas melhores sobre o que leva a diferentes padrões de cochilo.
Do lado brasileiro, um estudo com 689 idosos que vivem na comunidade encontrou sintomas de insônia em 49,9% e cochilo diurno em 62,8%. Quedas se associaram ao sexo feminino, a idade acima de 80 anos, a sintomas depressivos e ao cochilo (razão de chances de 2,24, intervalo de 1,24 a 4,05). É uma associação, não prova de causa: quem cochila muito pode estar assim por doença, por sedação ou por noite ruim. Mas é um sinal de que cochilo longo e frequente, em quem também cai, merece uma conversa com o médico.
A regra prática, que é prática clínica e não resultado de um número específico: se há cochilo, que seja curto, cedo na tarde e que não tire o sono da noite. O motivo é o mesmo do texto sobre insônia: o que fazer: sono longo à tarde derruba a pressão de sono que você precisaria à noite.
O que ajuda: o que os estudos mostram
Para a insônia crônica em adultos de qualquer idade, as diretrizes colocam a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) em primeiro lugar, e isso inclui idosos. Numa meta-análise de 14 estudos em idosos com insônia, os registros de sono mostraram aumento da eficiência do sono (8,36 pontos percentuais, intervalo de 5,96 a 10,76), queda do tempo para adormecer (9,29 minutos a menos) e do tempo acordado depois de adormecer (23,44 minutos a menos). O tempo total de sono nos diários caiu (12,35 minutos a menos), um efeito esperado quando se limita o tempo na cama e que reforça um ponto: a TCC-I melhora a continuidade do sono mais do que o número de horas. Os autores concluem que ela parece segura e eficaz nessa faixa etária.
Antes e ao lado da terapia, existem hábitos que a prática clínica costuma sugerir, sem número de estudo específico neste texto: luz natural pela manhã e atividade física durante o dia, que ajudam a organizar o relógio interno; horários de deitar e acordar parecidos todos os dias, inclusive nos fins de semana; cafeína só no começo do dia; e um caminho seguro até o banheiro, com luz de balizamento, porque o sono mais leve e as idas noturnas aumentam o risco de queda. São medidas simples, e seu valor está em somarem-se, não em resolverem sozinhas.
Quanto a remédios para dormir: esta página não recomenda nenhum. Em idosos, qualquer medicamento para o sono exige decisão médica cuidadosa, com revisão das outras medicações e do risco de quedas, e essa decisão não cabe a um texto da internet.
Procure um médico logo se um idoso fica confuso ou agitado à noite, se há quedas, se o sono ruim apareceu de repente ou veio com tristeza profunda, perda de apetite, ronco alto com pausas ou sonolência fora do normal de dia. Se houver pensamentos de se machucar, no Brasil o CVV atende 24 horas pelo 188. Este texto não substitui avaliação médica.
Para quem cuida: como ver a noite de outra pessoa
Quando um idoso diz «não dormi nada» e a família vê que ele dormiu, vale lembrar do estudo de São Paulo sobre insônia, em que sentir e medir não coincidiam sempre. O SleepTrace grava o áudio da noite no celular (iPhone e Android), estima as fases do sono e marca ronco, pausas seguidas de golfada de ar, tosse e idas ao banheiro, cada uma com horário. Não diagnostica nada, não substitui uma polissonografia e não detecta quedas. Usado com o consentimento da pessoa (a gravação é áudio do quarto, e isso é uma questão de respeito), ele serve para duas coisas: mostrar à família que o sono tem partes que a memória não guarda e levar ao médico um padrão em vez de «dorme mal». Para o idoso que mora sozinho e quer entender a própria noite, o mesmo vale.
Se o padrão for acordar muito de madrugada, o texto sobre acordar de madrugada descreve o mecanismo mais comum.
Perguntas frequentes
É muito comum, mas «comum» não é o mesmo que «normal». No ELSI-Brasil, 58,6% dos idosos relataram algum tipo de insônia. O sono muda com a idade (mais leve, mais fragmentado), mas as queixas se associam a doenças crônicas, sintomas respiratórios, depressão e pior saúde autopercebida, o que significa que muitas vezes há algo a investigar. Sono que deixa o dia ruim merece avaliação, não resignação.
Pode, e cochilos curtos e moderados se associaram a melhor saúde cognitiva do que cochilos longos numa revisão de 35 estudos, mas a evidência ainda é inconsistente. Num estudo com 689 idosos brasileiros, o cochilo diurno se associou a quedas. A orientação prática é que o cochilo seja curto, cedo na tarde e não atrapalhe a noite, e que cochilo longo e frequente, em quem também cai, seja levado ao médico.
O sono do idoso é mais leve e fragmentado, com mais tempo acordado depois de adormecer. Além do envelhecimento, contam apneia do sono, dor, urgência urinária, tosse, refluxo, medicamentos e depressão. Se há ronco alto com pausas, vale investigar apneia, que se disfarça de insônia.
Numa meta-análise de 14 estudos, ela melhorou a eficiência do sono em 8,36 pontos percentuais e reduziu o tempo acordado depois de adormecer em cerca de 23 minutos nos diários de sono, com os autores concluindo que parece segura e eficaz em idosos. O tempo total de sono nos diários caiu cerca de 12 minutos: o ganho está na continuidade, não em dormir mais horas.
Fontes
- Canever JB, Cândido LM, Moreira BS, Danielewicz AL, Cimarosti HI, Lima-Costa MF, Avelar NCP. A nationwide study on sleep complaints and associated factors in older adults: ELSI-Brazil.. Cad Saude Publica (2023). Europe PMC
- Ohayon MM, Carskadon MA, Guilleminault C, Vitiello MV. Meta-analysis of quantitative sleep parameters from childhood to old age in healthy individuals: developing normative sleep values across the human lifespan.. Sleep (2004). Europe PMC
- Foley DJ, Monjan AA, Brown SL, Simonsick EM, Wallace RB, Blazer DG. Sleep complaints among elderly persons: an epidemiologic study of three communities.. Sleep (1995). Europe PMC
- Pereira AA, Ceolim MF, Neri AL. [Association between insomnia symptoms, daytime napping, and falls in community-dwelling elderly].. Cad Saude Publica (2013). Europe PMC
- Li J, McPhillips MV, Deng Z, Fan F, Spira A. Daytime Napping and Cognitive Health in Older Adults: A Systematic Review.. J Gerontol A Biol Sci Med Sci (2023). Europe PMC
- Huang K, Li S, He R, Zhong T, Yang H, Chen L, Gao H, Jia Y. Efficacy of cognitive behavioral therapy for insomnia (CBT-I) in older adults with insomnia: A systematic review and meta-analysis.. Australas Psychiatry (2022). Europe PMC
SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.
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