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Melatonina para dormir: o que a pesquisa mostra

A melatonina tem fama de remédio para o sono, mas os estudos mostram um efeito pequeno. No Brasil ela é tratada como suplemento, e as regras dizem bastante sobre o que dá para esperar.

Por Jan Kohlhaas · 11 min de leitura · Atualizado em 02/11/2026 · Informação geral de bem-estar, não um diagnóstico médico · Ler em inglês →

A resposta curta

Melatonina para dormir tem efeito real, mas pequeno: numa meta-análise de 19 estudos com 1.683 pessoas, quem tomou melatonina levou 7,06 minutos a menos para pegar no sono (intervalo de confiança de 95%: 4,37 a 9,75) e dormiu 8,25 minutos a mais, em média. Ela é um sinal de que a noite começou, não um sedativo, e funciona melhor para acertar o horário do relógio do corpo (jet lag, fase atrasada) do que para insônia. A diretriz americana de 2017 sugere não usá-la para insônia crônica em adultos, e a brasileira de 2023 também a classificou como não recomendada nesse caso. No Brasil, desde 2021 a melatonina de venda livre é suplemento alimentar, com limite de 0,21 mg por dia e sem alegação de melhora do sono.

Melatonina para dormir costuma ser a primeira ideia quando o sono não vem. É vendida em farmácia, vem em gotas e comprimidos e a fama de "hormônio do sono" faz parecer que basta tomar. Os estudos mostram um efeito real, porém pequeno, concentrado em situações específicas. E no Brasil as regras mudaram: desde 2021 a melatonina de venda livre é um suplemento alimentar. Este texto reúne o que as pesquisas medem, o que as diretrizes dizem e o que a lei brasileira permite, sem indicar dose para ninguém.

Melatonina para dormir: o que ela é e o que faz no corpo

A melatonina é um hormônio que o próprio corpo produz, principalmente na glândula pineal, quando escurece. Ela é um marcador da fase escura do dia: avisa ao relógio interno que a noite começou. A diretriz brasileira de insônia de 2023 usa essa imagem e acrescenta que, como a melatonina tomada de fora age sobre os mesmos receptores, ela adianta ou atrasa a fase do sono conforme a hora em que é tomada. Ela é, portanto, um sinal de horário, e o relógio do corpo está explicado em ritmo circadiano.

Por isso a pergunta "a melatonina dá sono?" tem uma resposta menos direta do que parece. Ela não é um sedativo como os remédios que apagam o cérebro. O sono depende de um conjunto de coisas: cansaço acumulado durante o dia, hora do relógio, luz e estado de alerta. A melatonina mexe só na parte do relógio. Quem toma na hora errada, perto do fim do período de sono, pode empurrar a fase para o lado contrário do que queria.

Drager LF, Assis M, Bacelar AFR, Poyares DLR, Conway SG, Pires GN, et al. 2023 Guidelines on the Diagnosis and Treatment of Insomnia in Adults - Brazilian Sleep Association. Sleep Sci 2023. PMID 38370879

A melatonina ajuda a dormir? Os números dos estudos

A melhor síntese disponível para adultos e crianças com distúrbios primários do sono é uma meta-análise de 2013 com 19 estudos randomizados e controlados por placebo, 1.683 pessoas no total. Quem tomou melatonina levou, em média, 7,06 minutos a menos para pegar no sono (intervalo de confiança de 95%: 4,37 a 9,75), dormiu 8,25 minutos a mais (1,74 a 14,75) e relatou qualidade de sono um pouco melhor (diferença padronizada de 0,22). O efeito não desapareceu com o uso continuado, mas os autores o descrevem como modesto e menor que o de outros remédios para insônia. Na média dos estudos, isso é adormecer cerca de 7 minutos mais cedo; mesmo no limite superior do intervalo, menos de 10 minutos.

Ferracioli-Oda E, Qawasmi A, Bloch MH. Meta-analysis: melatonin for the treatment of primary sleep disorders. PLoS One 2013. PMID 23691095

As diretrizes pesam esse resultado de forma mais cautelosa. A diretriz americana de 2017 sobre tratamento com remédios da insônia crônica em adultos (Academia Americana de Medicina do Sono) sugere, com recomendação fraca, que médicos não usem melatonina para insônia de início ou de manutenção do sono. A diretriz brasileira de 2023, da Associação Brasileira do Sono, votou a melatonina como não recomendada para insônia crônica em adultos, com 76,5% de consenso para a dificuldade de pegar no sono e 88,2% para a de manter o sono e acordar cedo demais. O texto da diretriz resume que não há evidência consistente a favor do uso para tratar insônia em adultos jovens saudáveis.

Sateia MJ, Buysse DJ, Krystal AD, Neubauer DN, Heald JL. Clinical Practice Guideline for the Pharmacologic Treatment of Chronic Insomnia in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med 2017. PMID 27998379

Essas diretrizes mostram que "ajuda um pouco em média" e "recomendado para tratar insônia" são afirmações diferentes. A primeira descreve um conjunto de estudos; a segunda pesa benefício, risco, qualidade da evidência e alternativas. Para quem tem insônia, a alternativa com mais evidência não é remédio, e sim a terapia cognitivo-comportamental, tratada em insônia: o que fazer.

Para quem a evidência é melhor

A diretriz brasileira abre uma exceção importante: a melatonina pode ser indicada para insônia em idosos e em crianças com transtorno do espectro autista, embora o texto reconheça que a evidência não é robusta, e afirma que ela é eficaz nos distúrbios do ritmo circadiano. Isso bate com o que o hormônio faz. Quando o problema é o horário do relógio, e não a ausência de sono, mexer no sinal de horário faz mais sentido.

Dois exemplos têm estudos. O primeiro é a viagem por vários fusos: uma revisão da Cochrane com dez ensaios achou que, em nove deles, a melatonina tomada perto da hora de dormir do destino reduziu o jet lag em voos que cruzam cinco fusos ou mais; os autores estimam que o benefício seja maior quanto mais fusos se cruzam e menor nos voos para o oeste. A revisão também registra que a melatonina tomada em hora errada, no começo do dia, pode causar sonolência e atrasar a adaptação, e que relatos de caso sugerem risco para pessoas com epilepsia e para quem usa varfarina. A leitura prática é um assunto para médico, não para tentativa e erro; o assunto está em jet lag: o que é.

Herxheimer A, Petrie KJ. Melatonin for the prevention and treatment of jet lag. Cochrane Database Syst Rev 2002. PMID 12076414

O segundo é a fase de sono atrasada. A diretriz americana de 2015 sobre os distúrbios do ritmo circadiano de origem interna deu apoio, com nível intermediário de confiança, à melatonina em horário escolhido nesse quadro. É um uso calculado para a hora e o caso, em consulta, que não se confunde com tomar um comprimido para apagar à noite.

Auger RR, Burgess HJ, Emens JS, Deriy LV, Thomas SM, Sharkey KM. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Intrinsic Circadian Rhythm Sleep-Wake Disorders: Advanced Sleep-Wake Phase Disorder (ASWPD), Delayed Sleep-Wake Phase Disorder (DSWPD), Non-24-Hour Sleep-Wake Rhythm Disorder (N24SWD), and Irregular Sleep-Wake Rhythm Disorder (ISWRD). An Update for 2015: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. J Clin Sleep Med 2015. PMID 26414986

Em crianças as fontes divergem. A diretriz brasileira de insônia cita crianças com transtorno do espectro autista entre os grupos em que a melatonina pode ser indicada, enquanto a página do Ministério da Saúde diz que crianças não devem usar o suplemento. Para o pequeno, a decisão é do pediatra, e o texto melatonina infantil reúne o que se sabe sobre o assunto.

Melatonina no Brasil: suplemento desde 2021, não remédio

No Brasil, a regra é clara e raramente aparece nos rótulos. Segundo a página do Ministério da Saúde sobre melatonina (lida em 02/11/2026), a melatonina não é aprovada como medicamento no Brasil. Seu uso é permitido exclusivamente como suplemento alimentar, com dosagem máxima de 0,21 mg por dia, e a segurança só está comprovada para pessoas com 19 anos ou mais. A mesma página afirma que nenhum suplemento de melatonina pode fazer alegações sobre tratamento de insônia ou melhora do sono, e que produtos com dosagem acima de 0,21 mg por dia ou com alegações como "auxilia no sono" são considerados irregulares.

A autorização veio em outubro de 2021: segundo a reportagem da NutraIngredients de 18/10/2021 (lida em 02/11/2026), a Anvisa liberou a melatonina em suplementos para pessoas de 19 anos ou mais, com consumo máximo de 0,21 mg por dia e sem aprovar nenhuma alegação de benefício, com aviso obrigatório contra o uso por gestantes, lactantes e crianças. O limite é um teto da lei para esse tipo de produto. Não é a dose de ninguém, e este texto não indica quanto tomar.

Um segundo problema é a qualidade. A diretriz brasileira lembra que, por ser liberada como suplemento, a melatonina não está sujeita às mesmas regras de qualidade dos medicamentos. Um estudo de 2017 analisou mais de 30 suplementos de melatonina vendidos no Canadá e encontrou conteúdo entre 83% a menos e 478% a mais do que o rótulo informava; em mais de 71% dos produtos, o teor ficou fora da margem de 10% do rótulo, e 26% continham serotonina. Como a amostra não incluiu produtos brasileiros, o estudo não diz como eles são, mas explica por que "o que está escrito na caixa" pode não ser o que está dentro.

Erland LA, Saxena PK. Melatonin Natural Health Products and Supplements: Presence of Serotonin and Significant Variability of Melatonin Content. J Clin Sleep Med 2017. PMID 27855744

Efeitos adversos e quem deve evitar

Os efeitos adversos mais citados são dor de cabeça e sonolência, segundo a diretriz brasileira, que considera a melatonina bastante segura em relação a interações e abuso, embora ressalve que consequências a longo prazo precisam ser mais estudadas. A página do Ministério da Saúde acrescenta tontura, náusea, pesadelos e irritabilidade entre os eventos relatados e diz que não devem usar crianças, gestantes e lactantes. Pessoas com epilepsia, asma, doenças inflamatórias ou autoimunes, transtornos de humor ou de personalidade, e quem dirige ou opera máquinas, devem evitar o uso sem orientação profissional. Para o detalhe, veja efeitos colaterais da melatonina e tomar melatonina todos os dias faz mal.

O que fazer quando o sono não vem

Se o sono ruim dura três meses ou mais, ocorre três vezes por semana ou mais e atrapalha o dia, o nome técnico é insônia crônica. As diretrizes americanas (do Colégio Americano de Médicos e da Academia Americana de Medicina do Sono) e a brasileira colocam a terapia cognitivo-comportamental para insônia como primeiro passo. Ela inclui horários regulares, redução do tempo na cama acordado e controle dos estímulos, e é feita com psicólogo ou médico do sono. Antes de qualquer suplemento, vale também revisar o que costuma atrapalhar: cafeína à tarde, álcool à noite e luz forte perto da hora de dormir. O artigo como dormir rápido reúne o que há de estudo sobre isso.

Qaseem A, Kansagara D, Forciea MA, Cooke M, Denberg TD, Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Management of Chronic Insomnia Disorder in Adults: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med 2016. PMID 27136449

Procure um médico antes de usar melatonina se você está grávida ou amamentando, tem epilepsia, usa anticoagulante, trabalha dirigindo, ou se o sono está ruim há mais de três meses. Roncar muito alto com pausas na respiração também pede avaliação, porque nesse caso o problema pode não ser insônia.

O SleepTrace não diz se a melatonina funcionou para você. Ele escuta o som do quarto e estima as fases do sono; dá para acompanhar se a hora de pegar no sono muda de uma semana para outra, mas essa leitura é uma estimativa e não prova nada sobre um suplemento. Ronco, fala e tosse ficam salvos em clipes curtos (3 por mês reproduzíveis no plano gratuito, que inclui o acompanhamento noturno). O celular fica no carregador, com o app aberto. Há versões para iPhone e Android, e nenhuma delas faz diagnóstico.

Perguntas frequentes

Não como um sedativo. Ela é um sinal de que a noite começou e age sobre o relógio do corpo. Numa meta-análise de 19 estudos, a diferença para o placebo foi de 7,06 minutos a menos para pegar no sono. O efeito é pequeno e varia de pessoa para pessoa.

Um pouco, em média: 7,06 minutos a menos para adormecer e 8,25 minutos de sono a mais em 19 estudos com 1.683 pessoas. A diretriz americana de 2017 sugere não usá-la para insônia crônica em adultos, e a brasileira de 2023 também a classificou como não recomendada nesse caso, com exceção de idosos e crianças com autismo.

Não. Segundo o Ministério da Saúde, ela é permitida apenas como suplemento alimentar, com dosagem máxima de 0,21 mg por dia, para pessoas com 19 anos ou mais. Rótulos que prometem tratar insônia ou melhorar o sono são irregulares.

O Ministério da Saúde diz que crianças, gestantes e lactantes não devem usar. Pessoas com epilepsia, asma, doenças inflamatórias ou autoimunes, transtornos de humor ou de personalidade, e quem dirige ou opera máquinas, devem evitar sem orientação profissional.

Este texto não indica dose, porque ela depende de diagnóstico e de avaliação médica. O limite de 0,21 mg por dia vale para os suplementos vendidos no Brasil, mas é um teto da lei, não uma recomendação individual.

SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.


A diferença média de sete minutos só vira resposta quando você olha para as suas próprias noites. O SleepTrace estima as fases do sono pelo som e marca ronco, tosse e fala com horário, para você comparar as semanas. Ele não mede o hormônio, não indica dose e não prova que a melatonina causou uma mudança; isso fica com o médico.

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