Insônia pode causar, ou pelo menos se associa a, problemas reais, mas os números pedem leitura cuidadosa. Numa meta-análise de 13 estudos com 122.501 pessoas, insônia se associou a 45% mais risco de doença cardiovascular (RR 1,45). Quanto à saúde mental, ter insônia aproximadamente dobra a chance de depressão depois (OR 2,10 numa meta-análise de 21 estudos) e se associa a mais ansiedade (OR 3,23). Sobre morte, os estudos divergem: uma meta-análise de 17 estudos não achou diferença de mortalidade com insônia frequente e contínua (HR 1,07), enquanto um estudo de 20 anos achou risco maior (HR 1,58) apenas na insônia persistente, não na intermitente. Sobre peso, o que há é associação entre dormir pouco e obesidade (OR 1,55 em adultos), sem prova de causa. Para queda de cabelo, coceira e dor de cabeça, não encontrei estudo sólido para citar e digo isso em cada caso.
«Insônia mata?» é uma das buscas mais assustadoras sobre sono, e a resposta que o Google dá depende do dia. Alguns textos prometem que sim, outros garantem que não. A verdade, no que os estudos permitem dizer, é dividida: alguns riscos aparecem com consistência, outros desaparecem quando o estudo é desenhado melhor. Este texto separa o que se sustenta do que não se sustenta, com o número de cada estudo e o que ele mede.
Insônia pode causar doenças? O que a pesquisa mostra, risco a risco
Duas palavras de cuidado antes dos números. Primeira: a maior parte desses estudos mede associação, e associação não é prova de que a insônia cause o problema; pode ser o contrário, ou uma terceira coisa (estresse, doença, apneia) causando os dois. Segunda: risco relativo de 1,45 não quer dizer «45% de chance de ter a doença», quer dizer que, entre quem tem insônia, o risco é 45% maior do que entre quem não tem, a partir de uma base que costuma ser baixa. Para ver a diferença, um exemplo de ilustração (não são dados de nenhum estudo): se 5 em cada 100 pessoas sem insônia tivessem um problema cardíaco numa década, um risco relativo de 1,45 corresponderia a cerca de 7 em cada 100 entre quem tem insônia. Uma diferença que importa para a saúde pública e que raramente justifica pânico individual. O gráfico abaixo ajuda a comparar a ordem de grandeza.
Coração e pressão
Uma meta-análise de estudos prospectivos reuniu 13 estudos, com 122.501 pessoas seguidas por três a vinte anos, nas quais ocorreram 6.332 eventos cardiovasculares. A insônia, avaliada por questionário e definida como dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou noites inquietas, se associou a risco 45% maior de desenvolver ou morrer de doença cardiovascular (risco relativo de 1,45, intervalo de 1,29 a 1,62). Não houve evidência de heterogeneidade entre os estudos.
Sobre pressão alta, um estudo com 1.741 homens e mulheres da Pensilvânia, submetidos a polissonografia, encontrou que o maior risco estava na insônia com sono objetivo curto: razão de chances de 5,1 (2,2 a 11,8) com menos de 5 horas e de 3,5 (1,6 a 7,9) com 5 a 6 horas, em comparação com quem dormia normalmente e por 6 horas ou mais. Os autores ajustaram para idade, peso, diabetes, tabagismo, álcool, depressão e apneia. É um estudo transversal, então fala de associação num ponto no tempo. A conclusão deles: a insônia com sono curto parece ser um subtipo mais arriscado.
Humor: depressão, ansiedade e a via de mão dupla
É aqui que os números são mais fortes. Uma meta-análise de 21 estudos longitudinais mostrou que quem tem insônia e ainda não tem depressão tem aproximadamente o dobro do risco de desenvolvê-la depois (razão de chances de 2,10, ou 2,60 no modelo de efeitos aleatórios, que é mais heterogêneo). Os autores admitem a principal limitação: os estudos nem sempre consideraram outras variáveis. Uma meta-análise posterior, com 13 estudos, estimou razão de chances de 2,83 para depressão, 3,23 para ansiedade, 1,35 para abuso de álcool e 1,28 para psicose, com risco de viés moderado nos estudos originais.
O que dá para dizer com segurança: insônia e saúde mental andam juntas, nas duas direções, e quem tem uma das duas deve observar a outra. Os autores desta última meta-análise ressaltam que faltam estudos de longo prazo para saber se tratar a insônia previne esses transtornos. Isso é uma pergunta aberta, e não vou fingir que está resolvida.
Insônia mata? A resposta dividida
Três estudos, três respostas parcialmente diferentes. Um estudo de comunidade com 1.409 adultos, seguido por 20 anos, encontrou que a insônia persistente (mantida ao longo de seis anos) se associou a mais mortes (razão de risco de 1,58, intervalo de 1,02 a 2,45), mas a insônia intermitente não (1,22, intervalo de 0,86 a 1,74). Uma meta-análise de 29 coortes, com mais de 1,5 milhão de pessoas, achou que dificuldade para adormecer e sono não reparador se associaram a maior risco de morte (1,13 e 1,23, respectivamente), enquanto o transtorno de insônia em si, a dificuldade de manter o sono e o despertar precoce não se associaram à mortalidade. E uma terceira meta-análise, com 17 estudos, não achou diferença de mortalidade em quem tinha insônia frequente e contínua (pelo menos três noites por semana, por pelo menos um mês): razão de risco de 1,07 (0,96 a 1,19).
O que isso quer dizer: afirmar que a insônia pode matar não é uma conclusão que os estudos sustentem de forma geral. O sinal aparece em subgrupos (insônia persistente, dificuldade para adormecer, sono não reparador), some em outros e depende muito de como a insônia foi definida. É prudente, e não alarmista, dizer que insônia que dura anos e vem com sono curto merece tratamento por seus próprios riscos. Há uma doença genética rara que tem a falta de sono como centro, tema do texto sobre a insônia familiar fatal, mas ela é outra coisa: uma doença priônica, não a insônia comum.
Peso: insônia engorda ou emagrece?
A insônia engorda? O que existe é a associação entre dormir pouco e ter obesidade. Uma meta-análise que reuniu 30 estudos (de 45 elegíveis), com 634.511 participantes, encontrou razão de chances de 1,89 para obesidade em crianças que dormem pouco e de 1,55 em adultos. Os próprios autores avisam que é difícil inferir causa, por falta de controle de variáveis importantes e evidência inconsistente sobre a ordem dos eventos. Ou seja: dormir pouco e engordar andam juntos, mas isso não é «insônia engorda» de forma direta, porque dormir pouco não é o mesmo que ter insônia.
E a insônia emagrece? Não encontrei estudo que mostre emagrecimento por causa da insônia. Quando alguém emagrece sem querer e dorme mal, as explicações costumam ser depressão, ansiedade, doença da tireoide ou outra condição que causa as duas coisas. Perda de peso sem explicação, com ou sem insônia, merece consulta.
As perguntas pequenas: cabelo, coceira, dor de cabeça
- Insônia causa queda de cabelo? Não achei estudo sólido que ligue insônia diretamente à queda. O que se descreve é que estresse físico ou emocional prolongado, que pode vir junto com noites ruins, desencadeia queda difusa semanas depois. É explicação plausível, não comprovada para insônia isolada. Queda de cabelo persistente tem outras causas (tireoide, ferro, hormônios) e merece consulta com dermatologista.
- Insônia e coceira no corpo: a relação costuma ser ao contrário. Coceira noturna atrapalha o sono, e quem dorme mal sente mais incômodo. Não tenho estudo para citar. Se a coceira é persistente, o caminho é descobrir a causa dela com o médico.
- Insônia pode causar dor de cabeça: sono ruim e dor de cabeça se associam, e acordar com dor merece atenção por causa de apneia, entre outras coisas. O texto sobre acordar de madrugada com dor de cabeça separa as causas.
Para fechar o bloco de perguntas curtas: o que a insônia pode causar no corpo? No fundo, a resposta é a mesma: cansaço e humor pior no curto prazo, e associação com doenças do coração, da pressão e do humor no longo prazo, com as ressalvas acima. Quem diz que a insônia pode causar tudo isso sem ressalva está simplificando.
Procure um médico se o sono ruim dura três meses ou mais, se há ronco alto com pausas na respiração, dor no peito, falta de ar, pressão alta que não controla, ou tristeza profunda e pensamentos de se machucar (no Brasil, o CVV atende 24 horas pelo 188). Este texto não substitui avaliação médica.
O que fazer com esses números
Dois recados práticos. O primeiro: se a sua insônia é recente ou eventual, não há motivo para pânico: o risco aparece com a insônia persistente e crônica, não com uma semana difícil. O segundo: a insônia crônica tem tratamento com respaldo, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (veja o texto insônia: o que fazer), e a investigação de causas como apneia e humor faz parte disso. O texto sobre as causas da insônia traz o roteiro.
E onde entra a gravação da noite? O SleepTrace grava o áudio no celular (iPhone e Android), estima as fases do sono e marca ronco, silêncios seguidos de golfada de ar e ruídos, com horário. Ele não calcula risco de doença nem faz diagnóstico. O que dá é um registro de várias noites para mostrar a um médico, e, se houver ronco com pausas, um motivo concreto para investigar apneia, que está por trás de parte das noites ruins associadas a coração e pressão.
Perguntas frequentes
Os estudos divergem. Uma meta-análise de 17 estudos não achou diferença de mortalidade com insônia frequente e contínua (HR 1,07). Um estudo de 20 anos com 1.409 adultos achou risco maior (HR 1,58) apenas na insônia persistente, não na intermitente, e outra meta-análise de 29 coortes achou associação com mortalidade para dificuldade de adormecer e sono não reparador, mas não para o transtorno de insônia em si. Resposta prudente: não há prova geral de que insônia mate, e insônia crônica merece tratamento por seus outros riscos.
No curto prazo, cansaço, mau humor e dificuldade de concentração. No longo prazo, associações com doença cardiovascular (RR 1,45 em 13 estudos com 122.501 pessoas), pressão alta (sobretudo na insônia com sono objetivo curto) e depressão e ansiedade. A maior parte dos estudos mostra associação, não prova de causa.
O que existe é associação entre dormir pouco e obesidade: numa meta-análise de 30 estudos reunidos, razão de chances de 1,89 em crianças e 1,55 em adultos que dormem pouco. Os autores dizem que é difícil inferir causa. E dormir pouco não é o mesmo que ter insônia. Sobre emagrecer por causa de insônia, não encontrei estudo.
Pode estar relacionada nos dois sentidos. Uma meta-análise de 21 estudos mostrou que quem tem insônia e ainda não tem depressão tem aproximadamente o dobro do risco de desenvolvê-la depois (razão de chances de 2,10). Outra meta-análise estimou 2,83 para depressão e 3,23 para ansiedade. Falta saber se tratar a insônia previne esses transtornos.
Não encontrei estudo sólido que ligue insônia diretamente à queda de cabelo. Estresse prolongado, que pode acompanhar noites ruins, é uma explicação plausível para queda difusa, mas não está comprovada para insônia isolada. Queda persistente tem outras causas e merece consulta.
Fontes
- Sofi F, Cesari F, Casini A, Macchi C, Abbate R, Gensini GF. Insomnia and risk of cardiovascular disease: a meta-analysis.. Eur J Prev Cardiol (2014). Europe PMC
- Vgontzas AN, Liao D, Bixler EO, Chrousos GP, Vela-Bueno A. Insomnia with objective short sleep duration is associated with a high risk for hypertension.. Sleep (2009). Europe PMC
- Baglioni C, Battagliese G, Feige B, Spiegelhalder K, Nissen C, Voderholzer U, Lombardo C, Riemann D. Insomnia as a predictor of depression: a meta-analytic evaluation of longitudinal epidemiological studies.. J Affect Disord (2011). Europe PMC
- Hertenstein E, Feige B, Gmeiner T, Kienzler C, Spiegelhalder K, Johann A, Jansson-Fröjmark M, Palagini L, Rücker G, Riemann D, Baglioni C. Insomnia as a predictor of mental disorders: A systematic review and meta-analysis.. Sleep Med Rev (2019). Europe PMC
- Parthasarathy S, Vasquez MM, Halonen M, Bootzin R, Quan SF, Martinez FD, Guerra S. Persistent insomnia is associated with mortality risk.. Am J Med (2015). Europe PMC
- Ge L, Guyatt G, Tian J, Pan B, Chang Y, Chen Y, Li H, Zhang J, Li Y, Ling J, Yang K. Insomnia and risk of mortality from all-cause, cardiovascular disease, and cancer: Systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies.. Sleep Med Rev (2019). Europe PMC
- Lovato N, Lack L. Insomnia and mortality: A meta-analysis.. Sleep Med Rev (2019). Europe PMC
- Cappuccio FP, Taggart FM, Kandala NB, Currie A, Peile E, Stranges S, Miller MA. Meta-analysis of short sleep duration and obesity in children and adults.. Sleep (2008). Europe PMC
SleepTrace é um app de bem-estar, não um produto médico. Este artigo é informação geral, não aconselhamento médico. Se os seus sintomas são frequentes, intensos ou preocupantes, procure um médico.
Ouça a sua própria noite. O SleepTrace transforma uma noite de áudio nas suas fases de sono e nos sons que você fez. Sem wearable, só o celular no criado-mudo. Baixar para iPhone e Android →
Continue lendo
- Causas da insônia
- Insônia: o que fazer
- Tipos de insônia
- Insônia familiar fatal
- Acordar de madrugada com dor de cabeça
- Paralisia do sono
- Alucinações hipnagógicas
- Melatonina: para que serve
- Melatonina em gotas
- Efeitos colaterais da melatonina
- Suor noturno
- Sonambulismo
- Dormir de boca aberta
- Melatonina infantil
- Melatonina com triptofano
- Melatonina engorda?
- Como tomar melatonina
- Como dormir rápido
- Pesadelos